Sunday, November 7, 2010

Um país cindido ao meio – por Ricardo Vélez Rodriguez (postado por Armando Rafael)


Artigo publicado no jornal Estado de S. Paulo
U
ma boa maneira de resumir o que se vem passando no Brasil nestes últimos meses é recorrer à metáfora utilizada por Royer-Collard, no início do século 19, para simbolizar as desgraças e a dinâmica ensejadas pela Revolução Francesa: “A democracia”, dizia o grande precursor dos doutrinários, “é um rio que corre com as margens cheias.”

Essa é a nossa “democracia de massas”, acelerada, ao longo dos últimos oito anos, pelo fenômeno do lulopetismo. Torrente verbal de linguajar chulo e de eterno palanque; de iniciativas mal costuradas (o tal de Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, que influencia o desempenho do País na esfera econômica, com gastança descontrolada jamais vista); de propostas sensatas no terreno macroeconômico (que vieram do passado recente, ao ensejo das reformas social-democratas promovidas notadamente pelos anteriores governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, destacando-se nesse contexto o Plano Real); de pregação messiânica que pretendeu fazer do retirante nordestino ocupante do Palácio do Planalto o novo salvador da Pátria; de favores oficiais distribuídos a esmo com a única finalidade de consolidar um eleitorado subserviente; de jacobinismo em alta por parte da coorte safada de “mata-mosquitos” do presidente populista; de corrupção generalizada, justificada pela revanche ideológica que tem embalado o discurso dos novos “donos do poder” contra as odiadas “elites”; de surgimento e consolidação de uma nova-velha elite de peleguismo sindical, inspirada no pior dos populismos; de clérigos e bispos da “Teologia da Libertação” que seguem as pegadas espertas de Leonardo Boff e de Frei Betto para canonizar as falcatruas petistas em nome da justiça social; de orgástica farra do setor do empresariado que se alinhou desavergonhadamente ao lado do poder para garantir as benesses do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os lucros subsidiados com o dinheiro do contribuinte; de louvação oportunista dos intelectuais amamentados com as benesses oficiais; enfim, de reificação ectoplasmática dessa entidade mítica genialmente descrita por Mario de Andrade como o “herói sem nenhum caráter” que, proveniente das obscuras florestas, percorre o País com a sua oralidade falaciosa, enganando todo mundo para voltar, após a farra escatológica, a sumir nas sombras de onde veio, deixando para trás um nunca visto cenário de terra arrasada em matéria de princípios e instituições.

Essa seria a imagem que melhor representaria, a meu ver, estes paradoxais momentos que estamos vivendo, de um País literalmente dividido ao meio pelos que se entregaram ao embalo dos sonhos da democracia fácil e do tudo pode porque “os que estão mandando são os representantes da alma popular”, materializando, assim, a pior das éticas, a totalitária, que sagrou o princípio de que “os fins justificam os meios”.

Sairemos ilesos desse tsunami de “retórica utópico-democrática” (como diria Jefferson)? Ou sucumbiremos a um chavismo à brasileira, aos cantos de sereia do núcleo marxista-leninista do petismo, que considera termos chegado à etapa definitiva de deflagração da “revolução do proletariado”?

O tempo dirá.

No comments:

Post a Comment