Tuesday, March 23, 2010

"El País" : Abusos Sexuais derrotam o papa - Por: José Flávio Vieira

23/03/2010
Juan G. Bedoya
El País

Em Madri Bento 16, que completará cinco anos no cargo em 19 de abril; o papa não cumpriu sua promessa de acabar com a corrupção sexual e afastar os acobertadores.

O pontífice alemão chegou ao poder há cinco anos clamando contra a "sujeira" em sua Igreja, mas não conseguiu lavá-la nem erradicá-la .

Bento 16 completará cinco anos no cargo em 19 de abril sem ter cumprido sua promessa mais famosa: acabar com a corrupção sexual e afastar os acobertadores, em sua maioria membros da hierarquia. A realidade é contumaz. Todos os dias são descobertos novos casos de abusos sexuais e de maus-tratos em centros educacionais católicos. E o que é pior: muitos prelados, em vez de combatê-los, os explicam com clamorosas acusações. É o que acaba de fazer o cardeal Antonio Cañizares, presidente da Pontifícia Congregação para o Culto. "Atacam-nos para que não se fale de Deus; pior é o aborto", disse o ex-primaz de Toledo. Com a mesma displicência se expressou o secretário de Estado da Santa Sé, Tarcisio Bertone. "Há pessoas que tentam nos desgastar, mas a Igreja conta com a ajuda do Alto", desculpa-se o cardeal italiano.

Há cinco anos, João Paulo 2º agonizava depois de 27 anos no cargo. Foi sucedido por Joseph Ratzinger, até então presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (antigo Santo Ofício da Inquisição). Os cardeais logo tomaram a decisão. Sua Igreja estava mergulhada em uma grave crise de prestígio, e a solução exigia conhecimento do problema e mão firme. O alemão Ratzinger era o homem. Havia demonstrado isso na Via Crúcis de 24 de março anterior, Sexta-Feira Santa. Em cada reza das estações do fundador cristão até o Calvário, havia acrescentado comentários de programa de governo. Na nona estação - terceira queda de Jesus sob o peso da cruz -, Ratzinger exclamou: "Quanta sujeira na Igreja e entre os que, por seu sacerdócio, deveriam estar entregues ao Redentor! Quanta soberba! A traição dos discípulos é a maior dor de Jesus. Só nos resta gritar-lhe: 'Kyrie, eleison. Senhor, salvai-nos'".

Aquela arenga lhe valeu o pontificado. Cinco anos depois, o clamor pela sujeira continua. O papa voltou a decepcionar no sábado, em sua pastoral sobre a Irlanda. Pede a seus bispos que enfrentem os problemas com "coragem", mas não prometeu sanções aos culpados nem reparações às vítimas. A mesma atitude teve diante da corrupção dos Legionários de Cristo, tolerada durante décadas. Seu fundador, Marcial Maciel, movimentou-se nesse tempo como peixe na água por Roma. Inclusive gozou da amizade de João Paulo 2º. Mas o famoso sacerdote era um pederasta recalcitrante e teve meia dúzia de filhos. Muitas de suas vítimas foram alunos do seminário de Ontaneda (Cantábria), também submetidos a vexações por outros sacerdotes do grupo.

As denúncias contra Maciel chegaram à mesa do papa polonês durante anos. Ratzinger também as conhecia. Ambos as desprezaram. Maciel enchia estádios de futebol nas viagens do líder católico. Aquela proteção obscurece a beatificação de João Paulo 2º e ameaça a credibilidade de Ratzinger. Este papa foi eleito em 19 de abril de 2005 e não tomou qualquer medida contra os Legionários até maio de 2006.

Dr. José Flávio Vieira

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