Monday, October 26, 2009

"Resgate" mais que necessário - Por: José Nilton Mariano Saraiva

Grosso modo, sem necessidade de se apelar para as burocráticas definições oferecidas nos sites da vida, definiríamos “seminários” como eventos programados e destinados a se “discutir”, em profundidade, preferencialmente com a participação popular, temas e/ou personalidades de relevância, dentro de um determinado contexto histórico.
Uma particularidade: quando tal evento é organizado e conduzido com a competência e seriedade que se impõe; quando se privilegia o verbo “discutir” e não o “concordar” (de passividade); quando não se submetem os debatedores a amarras ou imposições de qualquer espécie (veladas, já que não publicizadas); quando a antecipada escolha das personalidades expositoras não contempla apenas e tão-somente os adeptos de um pensamento de via única; quando, enfim, não prevalece um “script” predeterminado, estamos diante de um seminário “contundente”, que tende a dá frutos, gerar dividendos, agregar conhecimentos, abrir horizontes.
Se, entretanto, existir uma certa tendenciosidade ou direcionamento; se prevalecer entre os atores envolvidos um certo engessamento ou passividade conveniente; se os participantes não puderem ousar ou fugir do antecipadamente “recomendado” pelos organizadores; se não houver a necessária diversidade de opiniões entre os debatedores; se, enfim, inexistir o contraditório, a interrogação, a dúvida, a profundidade necessária, estaremos diante de um seminário que, particularmente, rotularíamos de “garapa-com-açúcar”, cujo objetivo e tendência é a manutenção do “statu quo ante”, o “deixar-como-está-para-ver-como-é-que-fica”.
Um exemplo de seminário “contundente” foi o realizado recentemente em Missão Velha, aí no Cariri, quando, durante dias, foram expostas as vísceras (aqui usando uma figura de estilo) do cangaceiro Virgulino Ferreira, popularmente conhecido por Lampião. Pois bem, após debates e mais debates, divergências salutares, acirramento de ânimos, réplicas, tréplicas e o escambau, seus participantes chegaram à conclusão que Lampião não passou de um bandido sem escrúpulos, cruel e desumano e, não, como professavam e advogavam alguns adeptos, um mitológico herói da caatinga, defensor dos pobres e desvalidos, um Robin Hood tropical.
Já com relação ao seminário “garapa-com-açucar”, poderíamos rotular o realizado anos atrás, em Juazeiro do Norte, com o pomposo título de “internacional”, enfocando o Padre Cícero, quando o resultado ou conclusão poderia muito bem, por paradoxal que possa parecer, ter sido anunciado no próprio ato de abertura, tal a obviedade do diagnóstico proferido, no encerramento: o homem é santo, ninguém discute e estamos conversados, pt saudações. Assim, não importa que a Igreja Católica o tenha descredenciado e lhe proibido de representá-la, pública ou particularmente, acusando-o de charlatanismo (“exploração da credulidade pública, inculcando ou anunciando cura por meio secreto ou infalível”), tanto que a sua “principal obra” (o tal do “milagre da hóstia”) foi considerado um grande engodo, verdadeira farsa (palavras da Santa Igreja Católica); tampouco não se deveria levar em conta que a Igreja Católica pôs em dúvida seu modus operandi de atuar junto aos menos esclarecidos, já que os explorando em sua boa fé; ou que, em sendo de origem humilde e exercendo um ofício que não lhe propiciava uma remuneração satisfatória, haja se tornado um grande latifundiário; enfim, a impressão é que parece ter havido uma recomendação expressa de não se aprofundar na questão, a fim de se evitar certos constrangimentos.
Falta, no entanto, programar e realizar um seminário contemplando uma personagem incompreensivelmente esquecida pela Igreja Católica, criminosamente relegada ao ostracismo pelos fervorosos adeptos do Padre Cícero, convenientemente deixada de lado pelas autoridades competentes; referimo-nos, obviamente, à beata Maria de Araújo, uma mestiça humilde e pobre, analfabeta, cabelo curto, recatada, subnutrida, doente - muito doente - a ponto de expelir sangue pela boca, freqüentemente (é muito pouca informação disponível, para a dimensão da sua atuação na história).
Desde cedo “adotada” pelo religioso, que a abrigou e deu-lhe guarida em sua própria casa, Maria de Araújo, compreensivelmente, devotava-lhe irrestrita e cega obediência, sem medir conseqüências. Assim, presumivelmente, teria sido preparada e exaustivamente treinada para funcionar como única coadjuvante da peça teatral mais tarde conhecida como o “milagre de Juazeiro”, onde o Padre Cícero funcionava como ator principal, sob a direção do bruxo José Marrocos e apoio informal do Floro Bartolomeu (as “sessões”, tal qual as produções globais da atualidade, tinham dia e hora antecipadamente anunciados e eram difundidas além fronteiras, de sorte que caravanas e mais caravanas, dos mais distantes rincões, se formavam e viajavam dias e dias, para presenciar o tal do “milagre da hóstia”). E eles aconteciam, com precisão britânica, exatamente na hora marcada (ô santo poderoso). Assim, a farsa se propagou, ganhou o mundo.
Esquivo, rebelde, escorregadio, insuflador, anos-luz à frente dos seus contemporâneos em termos de matreirice, inteligência e perspicácia, Padre Cícero engendrou e pos em prática tal plano, com objetivos pessoais definidos, nem que para tanto sua pobre serva Maria de Araújo haja sido, paulatinamente, levada ao sacrifício, já que carcomida fisicamente pelo esforço descomunal em servir de instrumento de uma farsa com um só beneficiário: o próprio.
Resultado ??? A partir de então, e até os dias atuais, oficiosamente, na crendice popular, Padre Cícero já é um santo inconteste (tanto que Juazeiro tornou-se a potência que é hoje, em função, principalmente, da desumana exploração dos romeiros, induzidos por uma mentira grotesca); e, oficialmente, a Igreja Católica (em conluio com uma mídia cada vez mais corrupta), em razão de interesses eminentemente mercantis (ou instituição para dá valor ao vil metal), prepara-se não só para reabilitá-lo, mas, também, santificá-lo e beatificá-lo (é só uma questão de tempo, mas virá, não se preocupem). E aí, vão sobrar “padrinhos”, responsáveis por tal “reconhecimento”.
Mas...e a beata Maria de Araújo ??? Quando morreu ??? Onde morreu ??? Num leito hospitalar ??? Cadê o prontuário médico atestatório ??? Ou teria sido numa humilde cabana de taipa, à beira de alguma estrada da vida ??? Teria tido alguma assistência em seus últimos momentos ??? Ou se foi sozinha e abandonada ??? E o seu padrinho, onde se encontrava ??? Será que apenas as dezenas de “lencinhos” manchados de sangue são suficientes para que a lembremos ??? Mas, quem garante que o sangue é mesmo o dela ??? E o mais importante: QUAL A “CAUSA MORTIS” QUE A VITIMOU ??? E se tiver sido por problemas pulmonares, o tal “milagre da hóstia” ficaria irremediavelmente comprometido ??? Será que essa é a razão do silencio sepulcral, a respeito ???
Como se observa, são muitas (e sérias) as indagações pertinentes, que poderiam ser esclarecidas através de um seminário “contundente”, enfocando-a (Maria de Araújo), ao tempo em que tanto a Igreja Católica, como os adeptos do Padre Cícero, fariam desse ato um resgate histórico, uma profissão de fé, uma questão de justiça, mesmo que “post-mortem”, à humilde beata.
Quem desfralda essa bandeira ??? Ela, com certeza, merece !!!

Autoria e postagem: José Nilton Mariano Saraiva


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