O CIRURGIÃO PSICÓTICONo Crato tinha um cirurgião muito bom, mas que, vez ou outra apresentava crise de comportamento. Foi o obstetra da minha mãe, no nascimento do meu irmão caçula, o Alexandre Mendelssohn. O Luís diagnosticava logo quando estava para surgir esse problema. Freqüentador da Sorveteria Glória, começava a fumar muito e beber mais do que uma dose de whisky. Mas o que era determinante mesmo, e que fazia a família mandá-lo imediatamente para São Paulo submeter-se a um tratamento psiquiátrico, era quando, ao término de uma cirurgia, ele batia as mãos e falava para seus auxiliares:
- “Pronto T-O TÓ. Macaxeira Mocotó”.
QUEDA DO CAVALO
O Dr. Mozart Cardoso era médico em Juazeiro do Norte. Muito inteligente e poeta repentista notável. Crítico mordaz do Crato. Não tinha meias palavras. Dizia que o povo do Crato era preguiçoso e aquelas fruteiras que existiam nos sítios não haviam sido plantadas. Apenas os moradores comiam as frutas com semente e tudo e iam defecar no mato, ocasião em que as sementes germinavam, gerando as fruteiras. O Luís foi o idealizador, organizador, construtor e primeiro Diretor do Clube Grangeiro (a grafia é com ‘g’, pois assim foi grafado o nome do rio que dá origem ao nome do clube). Para que não tivesse vida efêmera, determinou que 30% dos títulos deveriam ser vendidos no Juazeiro. Justificava pelo fato da maior força financeira da cidade, que já se anunciava àquela época, vindo de fato a se confirmar. O clube iria necessitar de sócios que viessem gastar no clube, para que ele pudesse sobreviver. O Luís queria um clube bom e que não encerrasse suas atividades logo em seguida, por falta de recursos para sua manutenção. A rivalidade entre as duas cidades era tão grande que os corretores se recusavam a vender títulos no Juazeiro. O próprio Luís se encarregou de vendê-los. Um dia, recebeu um recado que o Dr. Mozart estava querendo comprar um título. O Luís logo se apressou em visitá-lo, pois tinha muita curiosidade em conhecê-lo pessoalmente. Chegando ao consultório, ao se apresentar, o próprio Dr. Mozart pediu-lhe para entrar. O Luís não pode deixar de perceber, logo de início, um enorme hematoma no seu olho direito, deformando todo o rosto. O Dr. Mozart, antes de conversar sobre o a compra do título, se apressou em esclarecer o motivo daquele hematoma:
- “Luís, você sabe o que é uma manga, duas cercas uma ao lado da outra?”
- “Sei, sim”.
- “Pois eu ia montado em um cavalo nessa manga, quando ele assustou-se, não sei com quê. Empinou comigo e me jogou pra fora da sela e eu ainda ajudei, pulando. Pois Luis, eu fui de encontro a um mourão da cerca que quase furou meu olho, como você está vendo”.
- “Mas foi muita sorte o senhor não ter perdido o olho”.
- “É Luís, mas essa não é a estória verdadeira. Quando o cavalo empinou, eu estava era sonhando! Em vez de cair do cavalo, cai foi fora da cama, batendo com o olho direto na quina da mesa de cabeceira. Taí o resultado...”
BURACO DE BARALHO
O Dr. Mozart era um repentista de primeira e também costumava fazer poesia pornográfica. Foi o único prefeito de Juazeiro do Norte eleito graças à influência política dos Bezerra, que acabou sendo tirado da prefeitura por não obedecer em nada aos responsáveis pela sua eleição. Não suportava jogo de baralho. Certo dia procurou por uns amigos e todos estavam jogando “buraco”. Chegou junto ao grupo e improvisou os seguintes versos:
Bando de velhos impotentes
Sem mais tesão no caralho
Trocam o buraco de gente
Por buraco de baralho.
O “FANABÔ”
Uma figura muito querida do Crato chegou à velhice com um patrimônio respeitável e uma boa reserva em dinheiro. Tinha um pequeno ponto comercial, cuja principal atividade era o exercício da agiotagem. Todos aqueles que passavam alguma dificuldade financeira recorriam a ele, que prontamente os atendia. Sofria de um problema de calos nos pés. Por isso, andava com grande dificuldade. Naquela época ainda não existiam os tênis, e o único sapato que ele podia calçar era o seu precursor, aquele mesmo que eu usava nas minhas aulas de educação física no Colégio Diocesano do Crato: o sapato “fanabô” (assim se pronunciava). Por não ser de couro, esse tipo de sapato adaptava-se melhor às conformidades dos pés dele. Era de cor branca, necessitando ser periodicamente pintado com alvaiade. Recordo-me fazendo essa “pintura”, com uma escova de dentes usada, após cada aula de educação física. Esse senhor mantinha os seus sapatos impecavelmente brancos. Tinha vários pares. Por isso, de longe já se sabia que ele vinha vindo, devido aos invariáveis sapatos brancos. Os seus devedores aproveitavam-se deste detalhe para depreciá-lo:
- “Lá vem o pé de giz!”
Morreu com este apelido.
O FISCAL DE MENOR
Existia um fiscal do Juizado de Menores do Crato bastante severo. Mas, não era muito versado na língua portuguesa. Quando desconfiava que alguém de menor estava querendo freqüentar um ambiente proibido, apressava-se em abordá-lo:
- “Hei, você é de menor. Não pode entrar não”.
- “Mas ‘seu’ fiscal, eu não sou mais de menor não! Já estou dentro dos 20 anos.”
- “Comigo só vai dentro da lei. Pois então, ‘se indenize’!”
JESUS
Existia um proprietário de imóveis no Crato que ficou viúvo. Já estava em idade bem avançada, mas resolveu casar com uma moça bem mais nova do que ele. Chegaram até a ter filho. Após algum tempo, ele mais velho ainda, e a mulher em forma. Acabou se apaixonando por um moreno alto, bonito, de nome Jesus, o que terminou chegando ao conhecimento do velho. Por fim adoeceu e, no leito de morte, estava sofrendo de muitas dores. Alguém bastante religioso tentou confortá-lo, dizendo:
- “Lembre-se de Jesus!” (o Cristo, lógico).
E o velho, arquejando:
- “Homem, não fale nesse negro aqui em casa não”.
BAITOLA
Existia no Crato um bêbado que se caracterizava por ser chato e mal agradecido. A cara dele parecia uma castanha de caju, lembrando muito a do Presidente Dutra. Trabalhava com o Cândido Figueiredo. Era torcedor fanático do Flamengo. Em certa ocasião encontrou, cedo da noite, com o Senhorzinho, no calçadão que passou a existir ao lado da antiga Sorveteria Glória e da Imobiliária do Luís. A princípio lamentou o fato do Senhorzinho haver amputado uma perna, devido a problemas de diabete. Mal o Senhorzinho agradeceu os votos de pesar, ele disse, de primeira:
- “Mas o que eu queria mesmo era pedir cinco cruzeiros para eu tomar de cana”.
Senhorzinho, que era a delicadeza em pessoa, meteu a mão no bolso e deu o dinheiro solicitado. Pouco tempo depois volta o bêbado a pedir a mesma quantia, para a mesma finalidade. O Senhorzinho, sem se aborrecer e com muita gentileza, retrucou:
- “Mas, homem, procure agora a colaboração de outros. Eu acabei de lhe servir.”
Ele empertiga-se todo e, encolerizando-se, diz:
- “Você é um aleijado baitola”.
E o Senhorzinho, não perdendo a calma, lhe respondeu:
- “Bem, aleijado eu sei que sou. Mas baitola, eu estou sabendo agora, porque você acaba de me dizer”.
Fonte: Livro: "Só no Crato" - De Ivens Mourão - Direitos de Publicação concedidos ao Blog do Crato pelo autor - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS
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