Thursday, October 22, 2009

HISTÓRIA DO CRATO - Coronel Antonio Luis Alves Pequeno II E III

praca da se antiga crato

Coronel António Luís Alves Pequeno migra para o Crato na segunda metade do século XIX, das famílias vindas de Icó, a mais abastada e que teve muita influência na vida política, sócial e cultural de Crato foi a do Coronel António Luís Alves Pequeno. Sua patente de Coronel, hábitos e conduta de um homem empreendedor logo se tornou influente no cenário político da cidade; conseguindo ser o Presidente da Câmara Municipal, em 1853, meses antes de Crato elevar-se à categoria de cidade. Mesmo já elevada à categoria de cidade com um importante jornal, para a Comissão, Crato ainda estava longe de ser um espaço urbano "civilizado". Do ponto de vista da estrutura material, pelos relatos da Comissão, o sobrado mais luxuoso era o do Coronel António Luiz. Vale ressaltar que esse indivíduo não vinha das fileiras dos senhores de engenhos da região, como já citamos, e, sim, procedente das famílias de ricos comerciantes abastados da cidade de Icó, que

Os primeiros e luxuosos rituais de festa dessa nova elite são um exemplo disso. Vejamos um artigo do jornal O Araripe, número 27, em agosto de 1857: Domingo, 16 do corrente. O Sr. Tenente Coronel António Luiz Alves Pequeno II, por ocasião do batizamento de seu quarto filho, obsequiou aos seus amigos desta cidade com um esplêndido baile que foi assaz concorrido. Esta reunião provou bastante em favor do adeantamento moral do Crato. Não faltou ordem, gosto e delicadeza entre os numerosos convidados. Todos procuraram em dar de seus costumes a melhor ideia. Por sua parte o Sr. António Luiz e sua Excma. Sra. abundaram de delicadezas e bons modos com seus hóspedes, que ficaram penhorados de suas atenções. Uma numerosa companhia de senhoras, cujas graças eram mesmo superiores ao gosto apurado do seu trajar, grande número de oficiais da G. N. ricamente fardados, todos identificados no pensamento de dar ao festim o maior brilho, fizeram bem agradáveis muitas horas dessa noite, que tão veloz parecia correr. Uma bela música, uma companhia escolhida, licores variados e deliciosos, um chá servido com profusão são sempre cousas que muito agradam, mas cumpre confessa-lo, houve ai algo que
mais nos chamou a atenção: a educação apurada que revelaram os convivas, as maneiras delicadas que em todos se observaram. Julgando por esta bela reunião, qualquer estranho pode afirmar dos nossos costumes o juízo mais honroso. Agradecendo, pois, ao Sr. Tenente Coronel e a Sua Excma. Sra. as atenções de que fomos testemunhas e mesmo objeto, não o fazemos por mera etiqueta, mas para ter a ocasião de consignar o serviço que apresentou ao Grato, em geral, acabando de plantar os hábitos cultos das nossas capitais. (Pinheiro. 83-84)

Se, em 1817, a grande responsável pela defesa dos projetos políticos revolucionários foi a aristocracia rural, na segunda metade do século XIX, a idealização, defesa e difusão do projeto de civilização para a Região do Cariri vieram por intermédio da aristocracia urbana. Pois, já na segunda metade do século XIX, o Crato propunha-se a ser o núcleo disseminador de um projeto civilizador para a Região do Cariri. Para isso, servia-se do fato de ser o espaço mais povoado e de maior projeção económica na região. Foi a segunda freguesia criada na região, 1762; o primeiro povoado a ser elevado à condição de vila (inaugurada em 21 de junho de 1764 com o nome de Vila Real de Grato) (Cortez, 2000: Dissertação de Mestrado: 51).

O Padre Cícero sentiu a inesperada morte do pai, vítima de cólera, em 1862, interrompeu-lhe os estudos, obrigando-o a voltar para casa, tornando-se arrimo de família. Tinha que cuidar da mãe e das duas irmãs. A crise financeira decorrente da morte do pai transtornara a todos e só aos 21 anos de idade, com a ajuda do seu padrinho de crisma, Coronel Antônio Luiz Alves Pequeno II, ingressou no Seminário de Fortaleza, em 1865. Uma vitória para ele pois somente os meninos ricos podiam estudar em bons colégios. E estudar logo no Seminário de Fortaleza era mais do que ele mais queria e sonhava. O sonho do menino pobre novamente teve curta duração. A direção do seminário que, a princípio aceitara Cícero Romão estudando de graça, determinou o cancelamento de sua matrícula. Foi um golpe interior por ele sofrido, pois era pobre e não tinha como pagar as despesas do estudo que tanto queria continuar. Foi aí que novamente o padrinho abastado, Coronel Antônio Luiz Alves Pequeno II, salvou-lhe da difícil situação. Custeou-lhe o restante dos estudos, vindo a ser ordenado cinco anos depois, graças àquela providencial ajuda.

Os episódios da política cratense do final século XIX e início do século XX, sobretudo a disputa entre os Coronéis José Belém e Antônio Luis Alves Pequeno III. Destaco alguns tópicos que achei interessante:

- naquela época, quando as lideranças não chegavam ao consenso sobre os resultados das eleições (sempre fraudadas), quem definia o vencedor não era o poder judiciário mas a bala. O Governador esperava o resultado final da luta e legitimava o vencedor, consagrando o princípio comum nas brigas infantis de que “quem corre, perde”.

- O Coronel José Belém, vindo de Milagres, estabeleceu-se no comércio do Crato. Fez amizade com o influente chefe político José Antônio de Figueiredo e foi por este nomeado delegado. Posteriormente, na crise entre monarquistas e republicanos, o líder político, sem querer se comprometer, indicou o delegado para assumir a intendência (prefeitura) na condição de renunciar quando a situação voltasse à normalidade. O Cel Belém, no entanto, apegou-se ao poder e não cumpriu sua parte no acordo.

- Para permanecer na chefia da intendência, o Cel Belém montou guarda municipal armada, formada por jagunços trazidos de Milagres. A guarda cometeu tantas atrocidades contra os adversários a ponto de gerar descontentamento na população.

- Nas eleições de 1904 foram eleitas duas câmaras municipais. Uma comandada pelo Coronel Belém e outra liderada pelo Coronel Antonio Luis Alves Pequeno. Ambos pediram intervenção do governador que anulou os dois pleitos.

- Visando acalmar os ânimos e impor a ordem, o governador nomeou um delgado especial para a cidade. Desconfiando que o enviado era simpático ao Coronel Belém, seu oponente telegrafou ao governador protestando contra a nomeação e indicando um outro. Sabedor do fato, o Cel. Belém não aceitou este segundo nome e exigiu sua demissão. O fato é que os dois delegados, que haviam viajado logo após a indicação, chegaram ao Crato sem conhecimento das suas respectivas exonerações.

- Uma inocente serenata foi o estopim da batalha travada entre os dois chefes políticos. A polícia reprimiu com tal violência a manifestação romântica que matou o Sr. Horácio Jacome, pai do ex-prefeito (1959/1963) José Horácio Pequeno.

- A batalha pela chefia da intendência (prefeitura) do Crato, com dias de duração. teve a participação de centenas de homens de ambos os lados, inclusive 100 jagunços de Vila Bela (atual Serra Talhada), comandados pessoalmente pelo vigário da cidade pernambucana, primo do Coronel Antônio Luis.

- Apesar do cerrado tiroteio, grande quantidade de armas, da munição gasta e do respeitável contingente empregado, não há registro de mortes, apenas alguns feridos.

- O Coronel Antônio Luis ficou no poder de 1904 a 1912 e de 1914 a 1928, quando perdeu as eleições para o Dr. Joaquim Fernandes Teles, que administrou até 1930

Thomaz Pompeu de Souza Brasil Sobrinho, era filho de Antônio Pompeu de Sousa Brasil e Ambrosina Alves Pequeno (Ambrosina Pompeu de Sousa Brasil), ele era filho do Senador Pompeu Thomaz Pompeu de Sousa Brasil e Felismina Carolina Filgueiras; ela era filha do coronel Antônio Luís Alves pequeno II e Maria Pinto Nogueira. O pai era médico formado pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1873). Ele nasceu em 16 de novembro de 1880, em 17 de novembro de 1906 e faleceu em 09 de novembro de 1967, ambos os eventos ocorreram em Fortaleza. Casou-se com Maria Alice Pinheiro (Maria Alice Pompeu de Souza Brasil), de cuja união nasceu o único filho – José Pompeu de Souza Brasil (1908 – 1986). Historia de Crato-CE.

O antagonismo entre as duas principais cidades caririenses parece que tem uma origem mais forte no processo de emancipação política de Juazeiro, o que levou a um renhido e tenso embate entre as elites políticas das duas localidades. Igualmente, a posição explicitamente contrária do clero cratense com respeito aos supostos milagres de Juazeiro, é um antecedente que veio a fermentar inicialmente esta rivalidade. Da mesma forma, deve-se considerar, como um importante fator desse processo, a ascensão econômica de Juazeiro, já no início do Século XX. Este acelerado desenvolvimento, fruto das crescentes romarias, foi o argumento utilizado pelo movimento encetado pelas lideranças juazeirense em favor da autonomia do então distrito do Crato. No entanto, o motivo central do desejo emancipacionista era muito mais a exação fiscal em benefício do Crato sobre as receitas geradas no comércio de Juazeiro. Se já havia toda uma base fermentada para o crescimento do confronto, faltava, pois, quem se dispusesse a amassar a massa e, ao mesmo tempo, instigar as massas para a causa emancipacionista. Esse papel foi exercido pelos editores do jornal O Rebate, hebdomadário que circulou entre julho de 1909 e agosto de 1911. Segundo Rosilene Alves de Melo, “o objetivo principal do jornal era propagar a defesa levada a efeito pela elite política de Juazeiro contra as acusações que partiam da imprensa do Crato, que qualificava aquele lugar como antro de fanatismo e de banditismo”. Como resultado da propaganda anticratense, a população, mobilizada, decidiu boicotar o pagamento de impostos municipais recolhidos ao Crato.

Ainda é Rosilene Alves de Melo quem nos dá a seguinte informação: “o artigo publicado no dia 04 de abril de 1910 informa aos leitores que o coronel Antonio Luiz Alves Pequeno, principal chefe político do Crato, estaria preparando uma ofensiva armada contra Juazeiro; na oportunidade, os moradores do povoado são convocados para reagir energicamente:

“Chegou a notícia de que o Sr. Antonio Luiz está preparado para amanhã mandar uma força armada vos espingardiar, vos matar, por que não quereis pagar impostos municipaes na feira.
“Cada joazeirense deve estar prevenido com suas armas de promptidão para morrer ou matar em defesa de seus direitos. Às armas povo! Quem não é por nós é contra nós!”

Além da campanha veiculada em editoriais e artigos, O Rebate reservava um espaço, o Boletim Cariricata, onde eram veiculados gravuras, versos e trovas ridicularizando as autoridades do Crato. Um verso de um poema, intitulado Antonio Luiz Canella Preta trinchado pelo público, dizia:

“Quem diz verdade, não mente…
O homem perdeu a fama,
Cahiu em cheio na lama
Não tem galho em que s’aguente…
Quem provoca a muita gente,
Quando cahe quebra o nariz…
A força toda perdeu…
É coqueiro sem raiz
O pobre Tonho Luiz.”

Para encerrar esta primeira parte, abro um parêntesis para esclarecer que não pretendo, nesta análise sobre as origens da rivalidade Crato-Juazeiro, parecer tendencioso, como pode está parecendo por somente citar as fontes referentes aos métodos, às vezes questionáveis, da campanha anticratense. Mesmo não tendo as fontes que revelem como se deu a campanha movida contra Juazeiro pelas lideranças cratenses, creio que a tônica não foi muito diferente.

Fontes:

ALBUM HISTÓRICO DO SEMINÁRIO EPISCOPAL DO CRATO. Rio de Janeiro: Typografia Revista dos Tribunaes,1925. 245 p.
PINHEIRO, Irineu. Joaquim Pinto Madeira. Fortaleza: Imprensa Oficial do Ceará, 1946.
RAFAEL, Armando Lopes. Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro: o contra-revolucionário do Cariri de 1817.Crato: Tipografia do Cariri, 2000. 28 p.
ARAÚJO, António Gomes de (Pé). A cidade de Frei Garfos. Crato: Coleção Estudos e
Pesquisas, 1971
FARIAS FILHO, Waldemar Arraes de. Crato: evolução urbana e arquiteíura 1740-1960.
. História do Cariri. Vol. 2. Crato: Coleção estudos e pesquisas. 1964.

Texto enviado por: TONI Barreto Linhares, que busca mais informações sobre o Coronel Antonio Luiz Alves Pequeno II e III

No comments:

Post a Comment