Saturday, October 24, 2009

CRATO - A Lei de Chico de Brito - Por: Ivens Mourão


A LEI DE CHICO DE BRITO


O cratense Francisco de Brito ficou famoso em todo o Nordeste como Chico de Brito. É o pai do repórter da Globo, Francisco José, baseado em Recife. Por sinal a semelhança física é enorme. O Sr. Francisco era uma pessoa cheia de opiniões. Só prevalecia aquilo com que ele concordava. No seu território, era um verdadeiro rei. O Luís o conheceu sempre vestindo uma roupa caqui. A calça e a blusa, de mangas compridas, sempre da mesma cor e do mesmo tecido. Ai daquele que fosse contra uma opinião sua! O seu prestígio era tamanho que, se alguém perseguido pela polícia se segurasse em uma estaca da cerca das terras do Chico de Brito estava salvo! Nenhum policial se aventurava a prender alguém que se socorrera do velho, mesmo que fosse segurando numa simples estaca. As estórias são tantas, que hoje é impossível distinguir o que é verdade daquilo que é pura lenda. Surgiu, então, a expressão de “Lei de Chico de Brito”, quando alguém quer se referir a uma determinação fruto apenas da vontade própria.
A versão da história de como surgiu a expressão “Lei de Chico de Brito” está contada na Revista cratense A Província, em artigo assinado por Raimundo B. de Lima. Este ouviu o seu pai, José Barros Cavalcante, contar inúmeras vezes, por ter sido testemunha ocular. O meu cunhado, Edson Teixeira, também ouviu o testemunho de outro filho do Chico de Brito, Francisco Brito, a mesma explicação da expressão, que é a seguinte:
No Governo do Accioly, era intendente do Crato o Cel. Antonio Luís Alves Pequeno. A política virou, e assumiu o Governo do Estado o Cel. Franco Rabelo. Este nomeou para Intendente do Crato o Cel. Francisco José de Brito. O antigo Intendente não quis entregar o posto. O novo Intendente foi ao Lameiro e falou com outras figuras importantes da cidade: Francisco Calaça, Diógenes Frazão, Abdon da França Alencar, César Pereira. Com estes e mais outros homens de confiança, entre eles Augusto Pereira Amorim, foram até à Prefeitura, encontrando-a fechada. Colocaram a porta abaixo. O Cel. Francisco José de Brito sentou-se na cadeira do Intendente, como uma maneira de formalizar a posse. Nisto, surge o Dr. Irineu Pinheiro (veio a se tornar o maior historiador do Crato), sobrinho do Intendente deposto. Revoltado, perguntou:

- “Mas que Lei é esta, me diga?”

O novo Intendente sentenciou:
- “É a Lei de Chico de Brito! Esta Lei eu mesmo fiz”


O Cel. Antônio Luís Alves Pequeno e o famoso Chico de Brito. O primeiro foi substituído pelo segundo na Prefeitura. A semelhança do Chico de Brito com o filho Francisco José, repórter da Globo, é total


RAIOS X

O Crato, durante anos foi o único município de interior a dispor de aparelhos de raios-X, para radiografias. Quem operacionalizava era o Dr. Dalmir Peixoto. Prestava grandes benefícios no diagnóstico de doenças, principalmente tuberculose ou fraturas. Tudo isso era possível com a disponibilidade de energia gerada na turbina da nascente, propiciando uma voltagem de 220 volts perfeita. Com o rápido crescimento da cidade, a turbina passou a não dar mais vencimento. Houve a necessidade de adquirir um gerador a Diesel. Mais alguns anos e nem esse reforço foi suficiente. Enquanto se esperava pela energia de Paulo Afonso, a cidade conviveu com a energia elétrica bem precária. O drama maior era quando o Dr. Dalmir ia tirar uma radiografia. Tinha que ligar para o Pedro da ‘Luz’, (o funcionário da prefeitura encarregado do gerador):
- “Pedro da ‘Luz’, desliga a luz dos outros bairros que eu vou tirar as radiografias agora”

DOM VICENTE

Dom Vicente foi um Bispo extremamente operoso, no Crato. Não era um bispo de palácio. Ele não! Estava sempre se movimentando, dirigia camioneta (uma grande novidade para a época), buscava recursos para a Diocese onde quer que existissem. A sua amizade com o Ministro Pinotti possibilitou a obtenção de muitas melhorias, viabilizando o ensino universitário no Crato, a Rádio Educadora, construção de casas para alugar as famílias pobres. Do Programa Aliança para o Progresso conseguiu doações de alimentos, que distribuía com os pobres. Apesar de toda essa operosidade, pessoas maledicentes falavam mal do Bispo. Diziam que ele só pensava em dinheiro e que desviava recursos. Quando não o chamava de ‘Dom Dinheiro’, era ‘Dom Ratão’. Dom Vicente tinha conhecimento desses comentários, mas não dava a mínima importância. Continuava a fazer o seu excelente trabalho, com muita dedicação.


Palácio do Bispo


Numa ocasião, observou que a torre da Rádio Educadora estava necessitando de uma nova pintura. A única pessoa no Crato habilitada a fazer esse serviço, era o pintor Vicente Ferrer, apesar da idade já adiantada. A negociação para a contratação dos serviços foi um embate entre os dois ‘Vicentes’ muito espertos, que não se deixavam enganar. O Ferrer alegava que era o único na cidade com coragem e experiência para pintar em alturas. O serviço seria muito bem executado e a torre estava necessitando de um trabalho urgente, para preservar sua integridade. Utilizaria apenas um auxiliar. Disse que cobraria um preço alto, o que realmente fez. Executaria o serviço em quinze dias e o material seria por conta dele. O Bispo retrucou:

- “Também, com um preço desse, se o material não fosse por sua conta seria um absurdo”.

Por fim, o serviço foi contratado. No primeiro dia o bispo foi fazer uma vistoria e o Ferrer estava efetivamente trabalhando. Nos dias subseqüentes, devido aos seus múltiplos afazeres, não foi inspecionar a pintura. No quinto dia, o pintor chegou ao palácio e falou para o Bispo:

- “Dom Vicente, terminei o trabalho!”.

- “O que!?!? Já terminou? Não eram quinze dias, homem de Deus?!?
- “Não, Dom Vicente eu trabalhei dia e noite, não tive descanso e terminei o serviço. Pode ir conferir”.

O Bispo foi então conferir. Olhou a torre por todos os lados e notou que ela estava pintada mesmo. Achou que pagara um preço muito alto. Um serviço de quinze dias feito em cinco! Comentou, então:

- “É, e ainda dizem que o ladrão do Crato sou eu...”


ALIANÇA PARA O PROGRESSO

Dom Vicente era um bispo pós Vaticano II. Mente aberta. Uma pessoa sensível aos problemas sociais dos seus paroquianos. Grande parte dos cratenses não estava acostumada com um Bispo dinâmico como ele. Diziam que vendia a farinha de trigo que recebia de doação da Aliança para o Progresso. Tudo era fruto da ignorância de como funcionam estes programas internacionais de doação de alimentos. Da quantidade de farinha que recebia, o Programa autorizava vender uma porcentagem para arrecadar o suficiente para pagar os valores de frete, armazenagem e capatazia a que estava obrigado. Mas o povo dizia que ele estava vendendo a farinha e embolsando o dinheiro. Certa ocasião o Luís estava embarcando no Aeroporto do Crato, para o Rio de Janeiro. Ia viajar também o Dom Vicente, que se destacava entre todos pela sua grande altura e a elegância da roupa de bispo. Também, no aeroporto para viajar, um comerciante de farinha de trigo do Crato. Este, famoso por ser pessoa pouco esclarecida, achava que o Dom Vicente era um comerciante de farinha como ele. Aproximou-se do Dom Vicente, olhou para cima (era bem baixinho) e perguntou:

- “Como é que vai o negócio da farinha?”


Dom Vicente olhou de cima para baixo para aquela pessoa bem baixa ao seu lado e, com um desprezo total dá o calado como resposta. O Luís diz que o comerciante ficou tão desconcertado que saiu de fininho, sem saber onde enfiar a cara.

Fonte: Livro "Só no Crato" de Ivens Mourão - Direitos de Publicação concedidos ao Blog do Crato pelo autor. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.

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