Tuesday, January 3, 2012

O Inferno mora ao lado. por Elmano Rodrigues Pinheiro

Um sentimento de revolta vem crescendo no seio da população brasileira, com a quantidade de casos de pedofilia envolvendo religiosos de todos os credos, e deixando inocentes marcados para o resto da vida. Nessas reportagens veiculadas no Correio Braziliense de hoje 03/01/2012 no caderno Cidades, podemos acompanhar de perto a narração desses fatos, e manifestarmos o nosso sentimento de repúdio aos horrrores praticados contra essas criaturas indefesas. Pastor de Samambaia cumpre pena de 50 anos por violentar filhas de fiéis

Renato Alves

Kelly Almeida

Publicação: 03/01/2012 06:45 Atualização: 03/01/2012 08:45

Os abusos atribuídos ao religioso ocorreram entre 2005 e 2010, segundo a polícia de Samambaia Manoel Teoplício de Souza Ribeiro completou 52 anos no último dia 28, longe dos amigos, da família e das crianças que sempre o cercaram. O pastor evangélico carismático, de palavras poderosas e capaz de criticar com veemência o uso de maquiagem e de calças por mulheres, está condenado a 50 anos e 10 meses de cadeia por estupro. A sentença foi definida pela Justiça do DF há um mês.

O pastor Téo, como era conhecido na comunidade, vive trancafiado no Complexo Penitenciário da Papuda desde junho, quando teve a prisão preventiva decretada. As vítimas dele são seis garotas. Elas tinham entre 4 e 11 anos na época dos abusos. Em comum, além da beleza física, são de famílias que frequentavam a Assembleia de Deus Comadeplan, em Samambaia, onde o condenado pregava.

Os crimes atribuídos ao religioso ocorreram entre 2005 e 2010. Mas a polícia só começou a investigá-los em 12 de janeiro do ano passado, quando a 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia) recebeu a denúncia de um homem dizendo ser tio de uma suposta vítima do pastor. A menina tinha 7 anos e havia contado aos familiares que Téo tocava em suas partes íntimas.

Ao saber das revelações, a irmã mais velha, então com 11 anos, decidiu também revelar aos parentes as investidas sofridas do mesmo homem. Ambas relataram terem sido abusadas diversas vezes na casa dele e na delas. Elas repetiram as histórias, em detalhes, a psicólogas da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). A partir desse caso, desconfiados de que não se restringia às duas, agentes da 26ª DP ampliaram a apuração.

Ao longo de seis meses, agentes da Seção de Atendimento à Mulher da unidade policial colheram 22 depoimentos. Por meio dos testemunhos, os investigadores traçaram o perfil do pastor e levantaram provas. Maranhense de Chapadinha, município com cerca de 70 mil habitantes, ele morou em Ceilândia e ganhou a vida como pedreiro. Depois disso, mudou-se para Samambaia e virou líder evangélico. Quando assumiu a Comadeplan, no fim dos anos 1990, conquistou uma multidão de fiéis. A confiança era tão grande que, em 2005, uma das frequentadoras deixou a filha morar com ele.

A mãe tomou tal decisão ao se casar. Ela mudaria para Flores de Goiás, a cerca de 250km de Brasília, mas queria que os filhos continuassem em Samambaia por conta das melhores condições de estudo. “Ele (o pastor) pediu para ficar cuidando dela. Disse que ela faria companhia para a filha dele. Insistiu tanto que eu deixei”, conta a mãe. Mas quatro meses depois o religioso telefonou para a fiel dizendo que não queria mais a presença da garota na casa. A mãe não poupou a filha, sem querer saber o motivo da então pré-adolescente não querer ver o pastor nem ir à igreja.

Vergonha
A mãe da vítima, que hoje tem 17 anos, só soube dos crimes do pastor Téo depois que policiais civis brasilienses procuraram a família. “Um dia estávamos brincando no sofá de casa e ela me revelou o que se passou no tempo em que morou na casa dele. O meu mundo desabou. Além dos abusos sexuais, ele a obrigava a fazer os serviços de casa. Ela não quer tocar mais no assunto”, lembra a mulher, hoje envergonhada.

Já as duas irmãs que deram início à investigação foram violentadas em 2008 e em 2009. A mais nova tem hoje 9 anos. Tornou-se uma criança ansiosa e inquieta, de acordo com a mãe, que cria as meninas com o atual companheiro. O pai delas mora no Rio de Janeiro. A mais velha, de 13 anos, prefere se isolar. Ambas evitam lembrar os abusos. O assunto também é evitado pela mãe e pelo padrasto.

As perseguições por parte de alguns seguidores do religioso se estenderam a uma das meninas estupradas por ele. Ela, que tinha 11 anos na época do crime, foi recriminada pelos próprios familiares, após contar sobre os abusos. O Correio conversou com a adolescente, hoje com 14 anos. Discriminada por quase todos os parentes, ela mora com a mãe e uma avó. Antes de qualquer pergunta da equipe do jornal, ela quis saber do tempo de condenação do religioso. Ao ser informada, sorriu.

''Um filme de terror''

''O pastor Téo tratava as pessoas bem, todos gostavam e confiavam nele. Estava sempre rodeado de crianças. Aos fins de semana, reunia as meninas na casa dele. Algumas até dormiam lá, pois ele dizia que elas faziam companhia para as filhas. Eu confiava em deixar a minha também. A minha filha ia sempre aos cultos comigo, mas ela começou a querer usar calça e maquiagem. Ele a reprimia, dizendo que estava com o diabo no corpo. Como forma de castigo, ele a isolou e não quis dar nenhuma função para ela dentro da igreja. O tempo foi passando e descobri que o homem que dava sermões bonitos é mentiroso e dissimulado. Só fiquei sabendo dos abusos sexuais que ele praticou contra a minha filha seis anos depois. Me doeu muito, deu indignação. Toda vez que eu penso nisso passa um filme na minha mente, como se fosse um filme de terror. Espero que ele pague por tudo o que fez.''

Auxiliar de serviços gerais, mãe de uma das vítimas


Ao defender líder de igreja em Samambaia, fiéis falam em complô

Kelly Almeida

Renato Alves

Publicação: 03/01/2012 08:46 Atualização: 03/01/2012 10:07

O pastor Manoel Teoplício de Souza Ribeiro conquistava a confiança dos fiéis e depois abusava das filhas deles. Os crimes ocorriam dentro da casa do religioso, onde ele, até ser preso, morava com a mulher e os três filhos, duas meninas e um garoto. Mas o poder de convencimento do pastor Téo era tão grande que ele teve apoio de muitos frequentadores da igreja, mesmo após as denúncias das seis vítimas se tornarem pública e a condenação a 50 anos de cadeia.

Alguns fiéis defendem o pastor de forma fervorosa. “Ele é uma boa pessoa. Até hoje, eu não acredito nisso tudo. Eu frequento essa igreja há 12 anos, e ele era pastor desde aquela época. Ajudou a fundar o local”, afirma Bertulino Benício Ferreiro, 78 anos. O marceneiro acredita tanto na inocência do religioso que foi ao Complexo Penitenciário da Papuda visitá-lo. “Estive lá assim que ele foi preso. Ele estava muito abalado e sempre negou tudo”, conta.

Assim como ele, muitos seguidores do líder tentam convencer vizinhos de Samambaia da suposta injustiça cometida contra ele. E, pior, hostilizam as famílias das meninas abusadas. “A gente tem que falar sobre o assunto baixo, pois muitas pessoas aqui nos condenam e falam que ele é inocente. Essa sentença mostra que as vítimas são as meninas”, lamenta a mãe de uma das garotas, hoje com 14 anos.


Saiba mais...
Pastor de Samambaia cumpre pena de 50 anos por violentar filhas de fiéis A policial civil Patrícia Domingues esteve à frente das investigações e contou que uma das dificuldades em prosseguir com a denúncia do pedófilo foi lidar com uma acusação contra um líder religioso, muito querido entre os seguidores. “Tivemos empecilhos até com algumas mães, que não acreditavam nas filhas. Trabalhamos muito para conquistar a confiança delas”, revela. Todas as meninas se submeteram a exames de corpo de delito no Instituto de Medicina Legal (IML). Os depoimentos foram colhidos por psicólogas da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

Para o delegado Mauro Aguiar, que na época da investigação era titular da 26ª Delegacia de Polícia (Samambaia), a condenação do pastor é consequência de uma investigação emblemática. “Todas as pessoas ouvidas foram muito precisas e não deixaram dúvidas. Tudo o que foi apurado pela polícia se confirmou na Justiça, e o resultado é reconhecido com a condenação”, ressalta. “Ele fazia massagens e molestava as partes íntimas das crianças e falava que, desse jeito, estava tirando o diabo do corpo delas. Dizia ainda que os toques fariam delas mulheres mais férteis”, lembra.

Recurso

A defesa do pastor recorreu da condenação estipulada pelo juiz Romero Brasil de Andrade, da Primeira Vara Criminal de Samambaia. Mesmo assim, o preso não terá direito a aguardar novo julgamento em liberdade. Como alguns frequentadores da Assembleia de Deus Comadeplan, o advogado José Abel do Nascimento Dias e a família do acusado acreditam na inocência dele. “O que queremos é a absolvição. Caso eu não consiga, tentarei diminuir, ao máximo, essa condenação.”

Desde o início das investigações, a tese da defesa é de que as famílias das vítimas armaram um complô contra Téo. “Isso tudo foi feito por uma das mães, que tinha a intenção de galgar cargos na igreja sem seguir a doutrina ensinada pelo pastor”, acusa o advogado. Dias alega ainda que as vítimas foram ouvidas na DPCA sem a presença de um representante jurídico do condenado. Hoje, o pastor Téo está recluso na Papuda com outros presos condenados por crimes semelhantes aos dele, além de mantido em separado dos demais.

A Comadeplan funciona no mesmo local, na Área Especial da QR 615 de Samambaia. No entanto, o templo não leva mais o nome na fachada, toda pintada de branco. Vizinhos do prédio contam que, dos 60 antigos fiéis, apenas 12 continuam a frequentar o templo após a prisão do pastor. Hoje, com um novo líder, são 40. O Correio esteve no local e tentou falar com os responsáveis, mas ninguém nem sequer atendeu aos chamados da reportagem.

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