
Padre Cícero está a um passo da reabilitação. Até o último de seus dias, Cícero desejou morrer reconciliado com a Igreja que o renegou. O jornalista e escritor Lira Neto, autor de "Padre Cícero - Poder, Fé e Guerra no Sertão", fala nesta entrevista do seu livro, um dos lançamentos mais importantes de 2009, e da real possibilidade da reabilitação de Padre Cícero Romão Batista
Por exemplo, na relação de Cícero com Floro Bartolomeu durante a sedição de Juazeiro, praticamente o padre foi poupado no seu livro.
Você quer dizer que Cícero, junto a Floro Bartolomeu, envolveu o então presidente Hermes da Fonseca e o poderoso senador Pinheiro Machado para derrubar Franco Rabelo e restabelecer a oligarquia acyolina?
Quando formou o exército de jagunços para derrubar Franco Rabelo, Cícero já não deveria saber que seria impossível controlar tamanha tropa de bandoleiros e cangaceiros?
Mas por que, afinal, Cícero colocou tanto poder nas mãos de um homem irascível e difícil como Floro?
Já houve quem classificasse Floro como uma espécie de alter-ego de Cícero. Não faltou até quem quisesse adivinhar uma relação platônica inconfessada entre aqueles homens aparentemente tão desiguais. Prefiro dizer que, naquele momento, um tornou-se útil ao outro. Em pouco tempo, eram indispensáveis entre si. O livro mostra as raízes da relação. Exponho de forma minuciosa as motivações de ambos. Floro, médico, rábula e garimpeiro, era um aventureiro em busca de fortuna e de poder. Por seu turno, Cícero, já proscrito pela Igreja, reconheceu na astúcia de Floro Bartolomeu a oportunidade de se reinventar no território escorregadio da política cearense.
Então Cícero aproveitou-se de Floro Bartolomeu para a realização do trabalho politicamente incorreto?
Na primeira parte do livro - "A Cruz" - você faz o registro da infância de Cícero, sua passagem pelo seminário da Prainha, as primeiras dificuldades e sua chegada a Juazeiro, na época apenas uma aldeia. Mas o ponto alto da primeira parte são as dificuldades de Cícero com relação à Igreja Católica, tendo como epicentro o suposto milagre da beata Maria de Araújo. Por que a Igreja Católica reconheceu milagres semelhantes ocorridos na Europa e negligenciou o de Juazeiro. Preconceito?
Ainda no Livro Primeiro - "A Cruz" - vemos um Padre Cícero encurralado pelo bispado cearense, principalmente por dom Joaquim. Cícero tenta a todo custo, mas com humildade, fazer valer seus argumentos com relação ao milagre. Inclusive, a primeira comissão formada pelos padres Antero e Clycério, autoridades em teologia e membros do inquérito eclesiástico encarregada de investigar o suposto milagre, após um mês de trabalho, confirmou a tese de Cícero. Existia uma animosidade íntima entre Cícero e bispo dom Joaquim, uma inimizade que chegou a questões mais pessoais?
Não se tratava de uma questão pessoal, mas de uma questão de hierarquia, palavra que no clero embute grande valor e significado. Almas indóceis à autoridade de bispos e cardeais não vão para o Céu, preconiza a lógica canônica. Da perspectiva de dom Joaquim, ele apenas estava fazendo valer seu dever de bispo, de guardião da "pureza da doutrina". Para o bispo, defensor incansável da austeridade ultramontana, era inconcebível aceitar a proclamação de um milagre em pleno sertão, era inadmissível endossar um prodígio apregoado por grupos de beatos e beatas, homens e mulheres do povo, um bando de miseráveis arregimentados em torno de um sacerdote rústico e pouco instruído do ponto de vista formal, como Cícero.

Ainda na primeira parte do livro, um das passagens mais emocionantes é a viagem de Cícero a Roma. Quer dizer, Cícero continuou a remar contra a maré, indo a Roma, com a ajuda do presidente de Pernambuco, dos romeiros e de algumas famílias nordestinas abastadas em busca de sua reabilitação. Por que fracassou?
Suspenso das ordens sacerdotais, Cícero promoveu reuniões com os figurões da época e tornou-se um dos líderes políticos mais influentes do Ceará. Foi durante 18 anos prefeito de Juazeiro. Logicamente, um ato condenado pela Igreja da época.
É preciso esclarecer este ponto. Não foi o fato de ter entrado na política que motivou as punições de Cícero, que muito antes disso teve as ordens sacerdotais suspensas e ficou sem poder subir ao altar, rezar missa, ministrar sacramentos. Ora, padres-políticos sempre existiram no Brasil. Além do mais, é necessário lembrar que Cícero só ingressou na política já sexagenário, após ter sido julgado e condenado pela Igreja, de ser declarado um proscrito pela cúpula do clero. Foi a capacidade de articulação e de costurar alianças estratégicas com as elites que fez de Cícero um sobrevivente, enquanto outros líderes messiânicos de sua época, como Antônio Conselheiro, eram reprimidos e mortos pela repressão governamental.
Outra mancha que paira sobre Cícero e Floro, o segundo já doente de sífilis, foi quando os dois reuniram bandoleiros e cangaceiros para combater a Coluna Prestes no Ceará. Inclusive arregimentaram o bando de Lampião - que saiu de Juazeiro com um documento que lhe concedia a patente de Capitão.
A deterioração da relação de Cícero com os religiosos vizinhos do Crato foi também uma constante em sua vida. Isso forjou até hoje a rivalidade entre os dois municípios.
No final do livro, você descreve o sofrimento de Cícero, já com mais de oitenta anos, às portas da morte. Mesmo assim, ele negocia sua herança com o Vaticano, em troca de sua reabilitação, cedendo sua fortuna, acumulada através de doações dos romeiros e de famílias ricas nordestinas, ao clero cratense, um total avaliado em 340 contos de réis. Reconciliação nunca houve. E Cícero morreu como um proscrito. Ele foi traído pelo clero cearense?
Até o último de seus dias, Cícero desejou morrer reconciliado com a Igreja que o renegou. A doação espontânea de sua fortuna a instituições eclesiásticas e ao bispado do Crato é uma demonstração eloquente disso. O curioso a notar é que a Igreja Católica sempre condenou a origem do patrimônio de Cícero, por considerá-lo espúria, fruto do fanatismo, da má-fé e da ignorância dos romeiros e peregrinos. Pois a mesma igreja não teve pudores em se articular para receber o dinheiro que considerava sujo. O livro traz uma série de cartas trocadas entre a diocese do Crato, a Nunciatura em Petrópolis e os cardeais do Vaticano, escritas exatamente quando Cícero praticamente já agonizava. Todas as cartas tratam de um único assunto: como fazer para que o patrimônio do padre passasse aos cofres do próprio clero.
O seu livro traz uma extensa bibliografia. Quer dizer, seu trabalho foi de longo curso. Depois de tantas leituras, você, mesmo sendo agnóstico, se convenceu da existência do milagre?
Não sou um homem religioso. Não acredito em milagres. Mas é inegável que algo ainda inexplicável aconteceu em Juazeiro. O problema é que as perguntas tendem a ficar sem respostas para sempre, pois a maior parte das possíveis provas foi atirada ao fogo, por determinação de um decreto do Santo Ofício. O corpo da beata, de onde poderia se extrair material para uma comparação genética com os poucos paninhos manchados de sangue que sobreviveram ao decreto da Santa Sé, também sumiu em 1930, após exumação clandestina, ordenada pela Igreja. Ao mesmo tempo, penso que o fato de ter ou não ocorrido um milagre é irrelevante do ponto de vista histórico. O fundamental é compreender os desdobramentos do episódio, suas consequências, o que de revelador existe nesta história que envolve fé, intriga e poder.
Dentro da bibliografia pesquisada, você coloca também os inimigos de Cícero. Cita o libelo de Antônio Gomes de Araújo - O Apostolado do Embuste -, como um dos mais contundentes livros contra o milagre de Juazeiro. Na bibliografia pesquisada, você encontrou mais hagiografias ou livros que desconstroem Padre Cícero e o milagre da beata Maria de Araújo?
Tende a prevalecer a noção de que o santo é aquele que teve uma vida exemplar, que foi modelo de virtude. Padre Cícero se enquadraria nesse conceito?
A ideia de que os santos foram indivíduos imaculados, modelos de virtude, é absolutamente equivocada. Os santos, segundo a Igreja, são homens e mulheres que, em vida, foram confrontados em sua fé pelas muitas e inevitáveis imperfeições humanas. São indivíduos que travaram batalhas íntimas e pessoais entre a sua convicção e as deficiências e defeitos a que estamos sujeitos todos nós, seres humanos. Nesse aspecto, o caso de Cícero é paradigmático. Para mim, ele é um homem. Um homem fascinante. Exatamente porque contraditório, polêmico, capaz de produzir amores e ódios na mesma medida.
Milhares de romeiros brasileiros já canonizaram Padre Cícero. Quer dizer, a Igreja Católica, apesar de alguns sinais da reabilitação de Cícero, ainda continua a não reconhecer formalmente Cícero como santo. Por quê?
Entendo que isso é apenas uma questão de tempo. O pano de fundo da reabilitação canônica de Cícero compreende dois vetores. O primeiro é o reconhecimento oficial de que as romarias são legítimas expressões de fé, apesar do preconceito de que elas não passam de "coisa de fanáticos e ignorantes". O segundo, o fato de que o avanço das igrejas neo-pentecostais está a exigir uma reação imediata. Para a Igreja, pragmaticamente, tornou-se impossível deixar a legião de devotos de Cícero à margem da liturgia, sob pena de deixar também os romeiros e peregrinos expostos à ofensiva evangélica. Trata-se, sim, de uma nova espécie de "guerra santa". Os documentos produzidos no processo de reabilitação, ora em curso, não fazem questão de dissimular isso. O livro põe a questão a nu.
No término do livro, você descreve o desenvolvimento de Juazeiro. Ainda no epílogo, o bispo dom Fernando Panico, ao celebrar a missa de aniversário da morte de Cícero, deixa claro seu desejo da urgente reabilitação do "Padim". Parece que a reabilitação é vontade também do papa Bento XVI. Dessa forma, o reconhecimento de Padre Cícero torna-se algo concreto. Ou não?
Não tenho dúvidas de que a reabilitação já começou. Falta apenas a oficialização, a declaração pública. A recente elevação da matriz de Juazeiro a basílica é uma evidência disso. A instalação de um vitral com a imagem de Cícero, ao lado de outros santos oficiais da Igreja Católica na capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, também em Juazeiro, é outra. As homilias de dom Fernando Panico não deixam qualquer margem para incertezas. Cícero está sendo reabilitado. Na verdade, melhor seria dizer: a Igreja é que sentiu a necessidade de se reabilitar perante a força avassaladora da fé popular.
(José Anderson Sandes)
Diário do Nordeste ( Caderno 3)
03/01/10
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