Sunday, January 24, 2010

CRATO - Histórias e Estórias do Crato de Antigamente - Por: Ivens Mourão


A BRIGA

O comentário na Praça era a surra que um soldado da polícia tinha dado num dos Teles. Por pura maldade, covardia mesmo. Quase que mata o pobre do rapaz. Acontece que o agredido tinha um irmão lutador de judô: Alberto Teles. Houve, casualmente, o encontro do Alberto com o tal soldado, na Santos Dumont, próximo ao Cine Moderno e do calçadão que passa ao lado da Imobiliária do Luís. O Alberto foi reclamar ao soldado pela arbitrariedade cometida. O soldado, ao ver aquela pessoa franzina, já se encheu de coragem e partiu para a agressão. De repente sofreu um golpe que o arremessou pelos ares, indo estatelar-se no calçamento. De imediato sacou da arma e, antes de empunhá-la, o Alberto deu-lhe uma pernada, jogando a arma para longe. O soldado, covarde como era, puxou uma peixeira enorme. Alberto, então, entrou na relojoaria do Geraldo Formiga, que só tinha uma porta.


Calçadão que liga o Cine Moderno à Praça Siqueira Campos. À esquerda, o Grande Hotel e no térreo funcionava a Imobiliária do Luís.

Enquanto isso, alguém chegou na Imobiliária do Luís chamando:
- “Luis, Luís, vem cá depressa. Vem ver uma briga aqui na esquina, entre o Alberto Teles e um soldado!”
Quando o Luís chegou ao local, só ouviu um barulho dentro da relojoaria. Quando menos esperou, o soldado foi saindo, literalmente, voando pela porta e esparramando-se no calçamento. Foi se levantando e gritando:
- “Não deixem esse homem me matar!!!”

ZÉ CANGALHA

Impressionado com a façanha do Alberto em desmontar o soldado valentão, o Luís ficou tão entusiasmado que resolveu matricular-se na escola de judô de sua propriedade. Porém a idade já não ajudava mais. E, logo nas primeiras aulas convenceu-se de que nunca seria um Alberto Teles.
Certo dia, o Luís estava sentado na Praça Siqueira Campos, quando chegou o Zé Cangalha. Este tinha fama de valente. Gostava mesmo de dizer que era valente. Poucas pessoas tinham amizade com ele. O Luís era seu amigo e companheiro nos jogos de baralho. Foi uma amizade selada numa missão difícil e perigosa que os dois tiveram que cumprir. Dar fuga a um Arraes, caçado pela ditadura, que estava escondido na casa do Padre Frederico. Levaram-no para um estado vizinho, de onde embarcou num navio mercante, que o Governo francês determinara mudar de rota para levá-lo à França. O Zé Cangalha, percebendo que o Luís estava sentindo dores e com um emplastro Sabiá, perguntou:

- “O que foi isso Luís”?

- “Foi um diabo de um negócio de aprender Judô! Eu inventei de entrar na academia de Judô do Alberto Teles! Naquelas quedas levei uma pancada nas costelas e estou aqui, me vendo de dores!”
- Homem, deixe de besteira!! Que Judô que nada! Olhe, isto aqui é que é o seu Judô!!!
Nisto o Zé Cangalha abriu a camisa e o Luís viu um bruto de um 38 enfiado na calça. E continuou.
- “Luís, você sabendo atirar e sendo rápido, não tem Alberto Teles que tire a arma da sua mão!”

A FAMA

O Luís abandonou a academia de judô, mas continuou amigo do Alberto Teles. Chegou, inclusive, a vender-lhe um terreno, motivo pelo qual ficou sabendo do seu endereço: Rua José Carvalho.
Certa ocasião, num dia de muita chuva, ia passando por esta rua. Em sentido contrário, vinha um jeep e, ao aproximar-se do Luís, propositadamente passou numa poça d’água, dando-lhe aquele banho. Eram quatro conhecidos marginais, que saíram rindo. O Luís, na tentativa de escapar do banho, fez aquele gesto característico nessas horas, com o braço seguido do devido xingamento. Percebeu, então, que os caras estavam vindo de ré. Não sabia dizer o por quê daquela perseguição. Teve a intuição de atravessar a rua e entrar na casa do Alberto Teles. Foi a sua sorte. Quando estava abrindo o portão do jardim, ouviu uma brusca freada do jeep. Em seguida, um cantar de pneus e os marginais fugindo da cena.

Ficou parado e pensando: “Tudo isto é medo do Alberto Teles?!?!?!”

O PÁRA-CHOQUE

Zé Cangalha estava sempre com carro novo. Ninguém sabia a fonte de renda dele. Um dia seu carro estava parado perto da Siqueira Campos, quando um advogado, recém chegado à cidade, foi estacionar o carro à frente do de Zé Cangalha. Foi de uma imperícia tal que acabou batendo a traseira do carro dele no pára-choque frontal do carro do Zé, um Del Rey. O advogado desceu, olhou e comentou:

- “O Sr. é o dono do carro?”

- “Sou, sim, doutor!”
- “É, mas foi só um arranhãozinho, né?”
- “Doutor, arranhãozinho ‘pro’ senhor. Pra mim, que sou o dono do carro, não foi arranhãozinho, não!”
- “Então, vamos para uma oficina para mandar dar um retoque!”
- “Não, doutor! Não é assim como o senhor tá pensando, não! Em primeiro lugar eu vou lhe dizer uma coisa. Eu sou o FAMOSO Zé Cangalha! Daqui nós vamos sair é para a concessionária, mandar mudar todo este pára-choque.”
- “Mas não há necessidade!”
- “Não! Há sim! Nós vamos! Entre no seu carro que eu vou no meu, lhe seguindo!”
- “Mas eu estou aqui até sem talão de cheques!”
- Não, não tem problema não. Na hora aparece!
Foram à concessionária e o pára-choque foi efetivamente trocado. Conforme o Zé tinha dito, apareceu dinheiro, apareceu cheque, apareceu tudo. Quando foram se despedir o Zé disse:
- Doutor, agora o senhor pode contar com o amigo aqui, o velho Zé Cangalha. Numa situação inversa, eu estou do seu lado... Não abro nem pro trem!”

Fonte: Livro "Só no Crato" de Ivens Mourão - Direitos de Publicação concedidos ao Blog do Crato pelo autor - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

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