Wednesday, December 23, 2009

(in)Feliz Natais

"...EU PENSEI QUE TODO MUNDO FOSSE FILHO DE PAPAI NOEL,
BEM ASSIM FELICIDADE EU PENSEI QUE FOSSE UMA BRINCADEIRA DE PAPEL..."

Músicas Natalinas

Até o séc. IV, o Natal era comemorado em diferentes datas pelos países do mundo. Como a bíblia não diz claramente a data do nascimento de Cristo, as comemorações natalinas eram feitas geralmente no dia 25 de março, (dia da Anunciação à Maria do nascimento de Jesus), no dia 20 de abril (época da Páscoa) ou até no dia 6 de janeiro (dia de Reis). Foi somente a partir do ano de 336 d.C. que o Natal passou a ter uma data de comemoração: o 25 de dezembro, fixado pelo papa Júlio I.

É desse tempo que se originam as músicas natalinas, compostas para as celebrações oficiais da Igreja Católica. Embora não existam documentos definitivos sobre o tipo de produção musical do séc. IV, estudos etno-musicológicos revelam que as canções da época utilizavam linhas melódicas ligadas às escalas dos modelos da antiga cultura Greco-Romana.

A partir dos séc. 10 e 11, quando os compositores passam a registrar seus nomes nas partituras musicais, tem-se certeza da existência de uma produção artística muito mais elaborada. Desta forma, hoje conhecemos inúmeros cânticos sobre o Advento do Messias e o nascimento de Jesus, cantados regularmente por corais de todo o mundo. A criação do primeiro presépio por São Francisco de Assis, em 1223, incentiva a escrita de novas Canções com letras poéticas e de novos Hinos, sobre textos religiosos. A partir do séc. 16, com a divisão da Igreja Protestante da Igreja Católica, dobra o número de composições natalinas.

Em 1818, na Áustria, o padre Joseph Mohr escreve um poema dedicado ao nascimento do Menino Jesus. No dia seguinte, numa visita ao compositor Franz Gruber, mostra-lhe seu poema. No mesmo dia, estava pronta a partitura da música mais cantada do mundo, principal símbolo das festas natalinas: Silent Night (Noite Feliz).

E essa é a origem dos clássicos natalinos que sempre ouvimos nesta época do ano.

Pesquisa:Ana Teresa de Farias

NO BRASIL

"Boas Festas"

"Boas Festas", de Assis Valente, é a mais conhecida música brasileira tendo como tema o Natal. O baiano Assis, que vivia então numa pensão em Icaraí (Niterói), expressou na marcha sua saudade da família. Composta no Natal de 1932, a música foi gravada por Carlos Galhardo na Victor em outubro de 1933 e lançada com grande êxito no Natal daquele ano, constituindo-se no primeiro sucesso do cantor e do compositor. O arranjo de Pixinguinha incluía um sino fazendo contracanto após o verso "o sino gemeu" e numa breve pausa no verso "Papai Noel, vê se você tem". Galhardo precisou regravá-la em 1942 (o termo exato é este: precisou, porque na época as matrizes eram de cera e iam se desgastando se eram feitas muitas cópias; nesses casos, a gravadora convocava o cantor a fazer novo registro para poder ter outra matriz copiável). Nova versão foi feita pro LP Datas Felizes (1968).

Mais tarde, a canção entraria para o repertório dos Novos Baianos (gravada num compacto simples ao vivo, em 1974, pela Continental).

Ciclo natalino dos anos 30

Outras músicas já haviam cantado o Natal desde 1913 (ocasião em que a Banda do 10º Regimento de Infantaria do Exército gravou o xote "Natal das Crianças Pobres", de Eduardo F. Martins), mas foi só com o espetacular sucesso de "Boas Festas", em 1933, que as gravadoras decidiram explorar o filão. Assim, em 34, Francisco Alves lançou "Meu Natal", que compusera com Ary Barroso, e Almirante gravou "A Bênção, Papai Noel" (Bide - Alberto Ribeiro). O mesmo Bide, em parceria com Ataulfo Alves, escreveu "Papai Noel" para Galhardo lançar em 1935. Neste mesmo ano, Carmen Miranda apareceu com "Dia de Natal" (Hervê Cordovil), em que o presente pedido a Papai Noel era "fazer chegar depressa o carnaval"...

Apesar do indiscutível talento dos autores e intérpretes citados, nenhuma dessas marchas repetiu o sucesso de "Boas Festas" nem entrou para o inconsciente coletivo, o que levou ao fim do ciclo.

Rocks de Natal

Os intérpretes do jovem rock brasileiro passaram a dedicar-se ao repertório natalino seguindo os passos de Elvis Presley, que lançara em 1957 seu Christmas Album, com os rocks de Natal pioneiros. Já em 1958, Os Golden Boys regravaram "Natal das Crianças" e uma versão de Evaldo Rui para "Jingle Bells", intitulada "Sinos de Natal" (que o Trio de Ouro já gravara). Pelo visto, era uma espécie de teste da gravadora Copacabana para ver a reação do púbico. Como este gostou, receberia nos anos seguintes novas músicas de Natal cantadas por Celly Campello, The Bells, Demétrius e Maria Regina.

Durante a Jovem Guarda, Os Populares lançaram O Natal dos Populares como compacto duplo em novembro de 1966 e como LP em dezembro. No mesmo ano, fizeram sucesso os compactos duplos Feliz Natal, de The Pops, e Natal com Lafayette, com o grupo do tecladista que acompanhava todo mundo na CBS.

Não mudou o Natal, mudou o mercado musical

Parafraseando o título da última gravação de Galhardo para as festas de final de ano - "Não Mudou o Natal" (Alcyr Pires Vermelho - Oswaldo Santiago), de 1967 -, acredito que as mudanças pelas quais o mercado fonográfico vem passando desde o início dos anos 70 levaram ao fim da música natalina como gênero. Durante os anos 50 e 60, dispunha-se de uma variedade de suportes musicais à disposição do público - compacto simples, compacto duplo, LP -, que permitiam, por exemplo, à gravadora lançar em dezembro um compacto com duas (ou quatro) músicas de Natal, que só venderia naquele período, recolhê-lo em janeiro e relançá-lo no final do ano seguinte. Foi o que aconteceu, por exemplo, com Altemar Dutra, que fez sucesso com "Balada para Qualquer Natal" em 1966 e 1967.

O LP de Natal foi sempre uma exceção, para sucessos certos como o harpista Bourdon - como vimos no tópico anterior, Os Populares testaram a idéia lançando primeiro um compacto.

A partir de meados dos anos 70, com a opção das gravadoras pelo LP (depois CD) como formato único a ser oferecido ao público, era natural que o repertório natalino sumisse do mapa. Com a nova ordem, ou o artista lança um disco inteiro só de músicas de Natal (como o que Simone fez nos anos 90, puxado pela versão para "Happy X'mas" de John Lennon) ou inclui uma canção natalina num CD de carreira, o que em termos de mercado só parece interessante se o disco sair em dezembro. Mas quem faz isso? Nem Roberto Carlos, que desde 1965 lança seu disco nesse mês. Em todo esse período, ele só gravou uma canção de Natal - "Meu Menino Jesus" (parceria com Erasmo Carlos, 1998).

Presos noNegrito dia de Natal

única música brasileira que encontrei tendo o Natal como cenário é "In the Hot Sun of a Christmas Day" (Caetano Veloso - Gilberto Gil), em que os baianos comentam a sua prisão em 1968 no dia de Natal. A bem da verdade, a prisão aconteceu no dia 27 de dezembro, mas a antecipação ajuda a criar o clima dramático tenso da canção, escrita em inglês e incluída por Caetano no seu LP gravado em Londres em 1971 (intitulado apenas Caetano Veloso).

©Créditos das fotos: Joilson Kariri Rodrigues

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