Essa velha mania nossa de querer um bode expiatório, um cordeiro para ser imolado. Para se dizer: “vejam a culpa está aqui!”.
Não posso me furtar de dar opinião sobre o artigo da psicóloga K. ao ver o filme “Cazuza, o tempo não para”. Compreendo e compartilho de muitas preocupações da Doutora, pois tenho uma irmã em plena adolescência. Entretanto, o que K. chama de “coragem” me parece mais desinformação ou ausência de acuidade estética ao ratificar as palavras do Juiz Darlan sobre o poeta que revolucionou mais que a música, a literatura popular Brasileira.
Cazuza, como homem de seu tempo, atingiu picos de genialidade onde poucos, pouquíssimos estiveram. Só comparável aos outros gigantescos de sua geração como Ana Cristina César e Torquato Neto. Então “vamos pedir piedade, Senhor piedade”. Ok, ele era burguês. Ok ele teve momentos menos inspirados (“sou rico mas sou artista”). Mas isso não o desqualifica como, nas palavras de Caetano, o maior poeta e um dos maiores narradores dos anos 1980.
Homem das letras, Cazuza mostrou que genialidade não tem origem social, nem idade e com suas antenas afiadíssimas captou a vida nua, “escrota e deslumbrante”. Percebeu o desencanto dos grandes movimentos sociais (“meu partido é um coração partido”), a ressaca da liberação sexual dos anos 1970 (“eu vi a cara da morte e ela estava viva”) e a desigualdade de classe ( “num trem pras estrelas, depois de navios negreiros outras correntezas”). Mas claro que numa sociedade onde tudo é esperado de forma pronta e acabada para ser consumido sem conflitos nem contradições Cazuza está por fora. Numa sociedade onde esperam ilusórias soluções mirabolantes e definitivas [e moralistas] para as mazelas sociais Cazuza é apenas mais um marginal. Porque o poeta atormenta, faz pensar, exige raciocínios que não sejam rasos. E nos mostra: não há soluções fáceis.
Num mundo anestesiado pelo consumo também fácil, sentir faz medo. Queremos coerência. Tudo lavado e perfumado (mais uma vez, digo) pronto para ser consumido, descartável e livre de contradições. Uma sociedade anestesiada pelo Prozac, por auto-ajuda ou pela crença no recrudescimento da violência do Estado.
Claro, não há de se fazer vista grossa para as drogas. Mas elas não estariam inseridas numa dinâmica bem maior e mais complexa? Dinâmica na qual se pretende a todo custo preenchendo uma espécie de vazio cavado pela solidão do homem contemporâneo? O impulso do consumo do crack não parece semelhante aos nossos impulsos diante de uma vitrine de Shopping? Me parece assustador quando queremos substituir a nata de nossos pensadores por slogans de COMERCIAL de carro. Por favor, mais Platão menos consumo. Além do mais, em que medida o tráfico de drogas se torna fundamental para a manutenção do capital? São questões grandes que transcendem Cazuza. Mas reduzir Cazuza a Fernandinho Beira Mar é desqualificar uma das poucas áreas da vida que continuam resistindo ao Capital e à mercantilização das relações: a arte. Como dizia o filósofo Italiano Benedetto Croce “a arte é educadora enquanto arte e não enquanto arte educadora”. Nada de amarras para a arte. Sem didatismos. Vida longa a Cazuza. “Dia sim dia não eu vou sobrevivendo sem um arranhão da caridade de quem me detesta”.
Alexandre Sousa. Professor, Mestre em Políticas Públicas.
Não posso me furtar de dar opinião sobre o artigo da psicóloga K. ao ver o filme “Cazuza, o tempo não para”. Compreendo e compartilho de muitas preocupações da Doutora, pois tenho uma irmã em plena adolescência. Entretanto, o que K. chama de “coragem” me parece mais desinformação ou ausência de acuidade estética ao ratificar as palavras do Juiz Darlan sobre o poeta que revolucionou mais que a música, a literatura popular Brasileira.
Cazuza, como homem de seu tempo, atingiu picos de genialidade onde poucos, pouquíssimos estiveram. Só comparável aos outros gigantescos de sua geração como Ana Cristina César e Torquato Neto. Então “vamos pedir piedade, Senhor piedade”. Ok, ele era burguês. Ok ele teve momentos menos inspirados (“sou rico mas sou artista”). Mas isso não o desqualifica como, nas palavras de Caetano, o maior poeta e um dos maiores narradores dos anos 1980.
Homem das letras, Cazuza mostrou que genialidade não tem origem social, nem idade e com suas antenas afiadíssimas captou a vida nua, “escrota e deslumbrante”. Percebeu o desencanto dos grandes movimentos sociais (“meu partido é um coração partido”), a ressaca da liberação sexual dos anos 1970 (“eu vi a cara da morte e ela estava viva”) e a desigualdade de classe ( “num trem pras estrelas, depois de navios negreiros outras correntezas”). Mas claro que numa sociedade onde tudo é esperado de forma pronta e acabada para ser consumido sem conflitos nem contradições Cazuza está por fora. Numa sociedade onde esperam ilusórias soluções mirabolantes e definitivas [e moralistas] para as mazelas sociais Cazuza é apenas mais um marginal. Porque o poeta atormenta, faz pensar, exige raciocínios que não sejam rasos. E nos mostra: não há soluções fáceis.
Num mundo anestesiado pelo consumo também fácil, sentir faz medo. Queremos coerência. Tudo lavado e perfumado (mais uma vez, digo) pronto para ser consumido, descartável e livre de contradições. Uma sociedade anestesiada pelo Prozac, por auto-ajuda ou pela crença no recrudescimento da violência do Estado.
Claro, não há de se fazer vista grossa para as drogas. Mas elas não estariam inseridas numa dinâmica bem maior e mais complexa? Dinâmica na qual se pretende a todo custo preenchendo uma espécie de vazio cavado pela solidão do homem contemporâneo? O impulso do consumo do crack não parece semelhante aos nossos impulsos diante de uma vitrine de Shopping? Me parece assustador quando queremos substituir a nata de nossos pensadores por slogans de COMERCIAL de carro. Por favor, mais Platão menos consumo. Além do mais, em que medida o tráfico de drogas se torna fundamental para a manutenção do capital? São questões grandes que transcendem Cazuza. Mas reduzir Cazuza a Fernandinho Beira Mar é desqualificar uma das poucas áreas da vida que continuam resistindo ao Capital e à mercantilização das relações: a arte. Como dizia o filósofo Italiano Benedetto Croce “a arte é educadora enquanto arte e não enquanto arte educadora”. Nada de amarras para a arte. Sem didatismos. Vida longa a Cazuza. “Dia sim dia não eu vou sobrevivendo sem um arranhão da caridade de quem me detesta”.
Alexandre Sousa. Professor, Mestre em Políticas Públicas.
No comments:
Post a Comment