Tuesday, October 4, 2011

Falsos Ídolos. Por: Antonio Sávio


Entre as várias mudanças ocorridas no Brasil nos últimos cinqüenta anos, uma que merece uma atenção maior é o declínio do nível de educação da população. Isso antes de tudo é curioso ser observado, pois esse é justamente o período de maiores promessas para a democratização do ensino, para a democracia das massas etc. O declive notável do senso crítico do brasileiro acontece em dois pólos que outrora foram paralelos, mas que por hora tornaram-se uma só linha – por hora é demasiadamente otimista, uma vez que supõe que a coisa mude para melhor, o que de fato não vai acontecer- que seriam a “massa” e dita “classe intelectual”.
A falta de uma classe efetiva que possa ocupar os postos que supostamente seriam destinados a uma elite pensante, como tinham antes em todas as áreas veio a nos causar essa celeuma que atualmente se encontra o país. Antes tínhamos um Nelson Rodrigues que denunciava sem dó as idiotices do dia, assim como um Paulo Francis, um Roberto Campos entre tantos outros. Tínhamos de certa forma uma democracia no debate, uma vez que dávamos a opção ao leitor duas frentes de ideias das quais ele poderia sabiamente (ou não) escolher algumas delas. Com o passar do tempo, cada membro ativo dessa geração foi nos deixando e não foi sendo substituído a altura. No lugar de um Mário Ferreira temos um Luís Felipe Pondé, de um Nelson Rodrigues temos um Arnaldo Jabor e de “troca” em “troca”, ou melhor, de queda em queda o país foi perdendo o vigor na mesma proporção que crescia o discurso politicamente chato e hipócrita.

Onde outrora tínhamos intelectuais de fato, circulando livremente pelo país e deixando as ideias mais rasteiras para os subúrbios das almas mais medíocres. O próprio Nelson já em seu tempo denunciava: “Nas minhas notas de anteontem, escrevi que o idiota sempre se comportara como idiota. Era de uma modéstia exemplar, de uma humildade total. Não em nossa época. De repente, em nossa época, o idiota explode. Na minha infância, não passava do curso primário e já se dava por muito satisfeito. Nascia, crescia, namorava e morria sem jamais pensar por conta própria. Podiam pichar-lhe o túmulo com a seguinte inscrição: “Nunca pensou”. O idiota era quase um santo.
O trágico da nossa época ou, melhor dizendo, do Brasil atual, é que o idiota mudou até fisicamente. Não faz apenas o curso primário, como no passado. Estuda, forma-se, lê, sabe. Põe os melhores ternos, as melhores gravatas, os sapatos mais impecáveis. Nas recepções do Itamaraty, as casacas vestem os idiotas. E mais: — eles têm as melhores mulheres e usam mais condecorações do que um arquiduque austríaco”.

O fenômeno que naquela época já mostrava suas garras hoje já nos dominou totalmente. Eles chegaram ao poder em todas as instâncias. Com paciência e muita “educação” o processo, pode-se dizer, foi conquistado com algum mérito. A promessa de um mundo melhor, de um país com “todos pela educação”, “de olho na imprensa”, com a bondade de um “fórum mundial social”, com “leitura para todos”, cheio de ONG’s com gente que deixaria Cristo constrangido por sua falta de bondade, com gente consciente como um Frei Betto (aquele mesmo que deu sumiço a cinco mandamentos e nos disse que não precisaríamos ter fé em Cristo, mas ter a fé de Cristo nos movimentos sociais) que calariam um Chesterton, uma imprensa movida a Folha de São Paulo e ao Estadão. Não se pode ver a arte senão pelos olhos de uma Ana Mae, nem ver a realidade social com uma visão contrária ao Emir Sader. A pasteurização das consciências caminha a passos largos para o irreversível.

Há talvez inocência em achar que a atual situação tenha sido um “acidente”, no sentido aristotélico do termo, porém, é duvidoso. Talvez esse seja mesmo o coroamento, a sensação de liberdade talvez seja justamente essa. De escravizar por meio da ignorância quem paga pela educação. Esta por sua vez, jamais será possível ser feita para um indivíduo, mas apenas para as “massas”, para a “liberdade do povo por meio da educação”. A educação já não é um meio de liberdade, de auto-consciência, mas agora, fazendo o aluno como pião de uma peça de xadrez, ela vem a ser, como diria Freire, “um ato político”. Neste sentido, toda a filosofia medieval está errada, alguns grandes nomes da filosofia moderna e contemporânea como Voegelin, Girard, Xavier Zubire, Mises, Spengler, Jacob Burkhard entre tantos outros são completos idiotas, e, portanto, nada mais do que justo esquecê-los, desprezá-los, ocultá-los.

Mas se temos uma elite tão politicamente correta, tão hábil, qual o resultado? O que temos depois de anos de contracultura no poder (e, por favor, não venham aqui me dizer que FHC era um direitista por causa das privatizações) é um país que foi promessa, que tinha vida, que tinha notáveis pensadores virar uma máquina de fotocópias, uma escravidão mental ignóbil que atingiu não só a elite, mas que, como se já não bastasse, foi sendo repassada para as massas sob uma falsa promessa de educação. Depois de anos de pseudo-educação o estudante brasileiro não só está entre os piores do mundo como também, faz de seu objetivo de vida perder sua dignidade, se vulgariza e, ao contrário do barroco que em seu refinamento subiu em círculos concêntricos em direção para o céu, ele desce em linha reta para o inferno existencial.

O seu resultado é onipresente. Depois de anos de escola conseguimos fazer com que nossos filhos se encantem com os textos depressivos de novelas (a literatura vista na escola não adiantou de nada), que eles se ergam ao ápice da musicalidade de um pagode, funk, forró, etc., que argumentem contra o respeito a suas opiniões justamente quando deveriam saber diferenciar entre conceitos e palpites. De fato conseguimos por meio da covardia castrar todos os sonhos e esperanças por um país melhor. Enquanto os patetas ainda estiverem nas universidades, nos governos, nas gerências, ou melhor, no alto da montanha traçando destinos como quem rabisca em um mapa, vamos vivendo a pão e água, culturalmente falando. Mais uma vez, como diria Chesterton, eu não acredito nessa democracia, essa que as pessoas simplesmente estão “andando por aí”.


No comments:

Post a Comment