Confesso que ando irritado com a necessidade de ler notícias sobre o Brasil na imprensa estrangeira. A primeira vez foi no Le Monde, capaz de lembrar a imagem da “marolinha” criada pelo presidente Lula para explicar a surpreendente recuperação da economia brasileira. A segunda vez foi o Financial Times, num caderno especial publicado há poucos dias. Na sua última edição, a revista Economist, a mais influente do planeta, publica uma reportagem de capa sobre o Brasil com o título: “O Brasil decola.”Seria errado dizer que a imprensa brasileira jamais registrou o bom momento da economia brasileira — e as boas perspectivas abertas para o futuro. Em 25 de maio, Epoca publicou uma edição especial com o título: “Brasil em 2020 — por que viveremos num país mais adulto, mais rico e mais feliz.” Não é o único exemplo, com certeza. Mas é um exemplo raro.
A reportagem da Economist aponta o Brasil como um seríssimo candidato a país desenvolvido nas próximas décadas. Não deixa de apontar dúvidas e riscos colocados pelo presente e pelo futuro. Faz críticas explícitas ao governo. Mas não deixa de mostrar o progresso ocorrido nos últimos anos. Reconhece o papel de Fernando Henrique Cardoso na estabilização da moeda. Também assinala a melhoria na distribuição de renda ocorrida durante o governo Lula, fala do reconhecimento internacional do Brasil e assim por diante. Quinze dias depois de FHC falar em “autoritarismo popular,” num artigo que rendeu páginas e discursos, a Economist elogia a democracia brasileira.
Uma comparação é evidente. O cidadão que ler a imprensa estrangeira terá o retrato de um país mais próspero e equilibrado, que enfrenta problemas típicos de uma nação atrasada, com uma renda média, com carencias diversas em sua área social — mas que parece aproveitar uma oportunidade única de progresso economico e social.
A imprensa brasileira não cobre um país em progresso. Mas um país em crise na economia, na política, na democracia, no Supremo, na ética, em toda parte…
A Economist é uma revista erudita, de idéias conservadoras e consistentes. É também uma boa escola de jornalismo: não deixa sua opinião confundir sua visão sobre os fatos. Fundada na metade do século XIX, era usada por Karl Marx — que dedicou a maior parte de sua vida intelectual ao esforço para destruir o capitalismo — como fonte de consulta para suas análises de conjuntura econômica e desenvolvimento político.
A imprensa brasileira não cobre um país em progresso. Mas um país em crise na economia, na política, na democracia, no Supremo, na ética, em toda parte…
A Economist é uma revista erudita, de idéias conservadoras e consistentes. É também uma boa escola de jornalismo: não deixa sua opinião confundir sua visão sobre os fatos. Fundada na metade do século XIX, era usada por Karl Marx — que dedicou a maior parte de sua vida intelectual ao esforço para destruir o capitalismo — como fonte de consulta para suas análises de conjuntura econômica e desenvolvimento político.
Há 30 anos, os brasileiros tinham de ler jornais estrangeiros para encontrar notícias verdadeiras — e negativas — sobre o Brasil. Isso acontecia porque nossa imprensa estava submetida a censura — ou a auto-censura.
É difícil acreditar que, em pleno regime democrático, teremos de ler a imprensa estrangeira para encontrar notícias verdadeiras — e positivas — sobre o país.
Aliados do governo enxergam nessa postura da mídia uma estratégia golpista, de quem pretende criar um ambiente de desinformação e perda de confiança nas instituições democráticas para permitir um retorno da oposição ao governo — nem que seja por métodos não-democráticos. Discordo.
É difícil acreditar que, em pleno regime democrático, teremos de ler a imprensa estrangeira para encontrar notícias verdadeiras — e positivas — sobre o país.
Aliados do governo enxergam nessa postura da mídia uma estratégia golpista, de quem pretende criar um ambiente de desinformação e perda de confiança nas instituições democráticas para permitir um retorno da oposição ao governo — nem que seja por métodos não-democráticos. Discordo.
A oposição erra em apontar um espírito golpista no governo Lula — e até agora não fez uma avaliação honesta de sua denúncia de quase três anos contra um imaginário terceiro mandato.
Mas esta visão de que há uma imprensa golpista no Brasil não combina com o momento que o país atravessa nem com o amadurecimento das instituições nem com a importancia do Brasil no cenário internacional. Também não está de acordo com as convicções das empresas jornalisticas.
Do ponto de vista do realismo político, basta lembrar o que ocorreu em Honduras para imaginar como seria recebida a idéia de um golpe de Estado no Brasil.
Mas esta visão de que há uma imprensa golpista no Brasil não combina com o momento que o país atravessa nem com o amadurecimento das instituições nem com a importancia do Brasil no cenário internacional. Também não está de acordo com as convicções das empresas jornalisticas.
Do ponto de vista do realismo político, basta lembrar o que ocorreu em Honduras para imaginar como seria recebida a idéia de um golpe de Estado no Brasil.
O problema, a meu ver, é outro. Os jornalistas brasileiros foram formados na escola do espírito crítico, que ensina a desconfiar do governo e duvidar dos poderes estabelecidos. É uma boa escola profissional. Aliás, a melhor. Mas não é perfeita nem se resume a fórmulas. Exige equilíbrio de visão, disposição para levar o outro lado em conta, sob o risco de criar vícios mentais e respostas automáticas.
No início da década de 70, este espírito “crítico” impediu muitos profissionais de enxergar o crescimento economico que se chamava de milagre — porque estavam convencidos de que o pais estava à beira de uma catástrofe que levaria à luta armada e à guerra civil. Em 2005, boa parte da mídia cobriu o que imaginava que iria ser o impeachment do governo Lula a partir do mensalão.
O espírito crítico exige que, acima de tudo, se preste atenção aos fatos.
Fonte: Época
Postado por Armando Lopes Rafael
No início da década de 70, este espírito “crítico” impediu muitos profissionais de enxergar o crescimento economico que se chamava de milagre — porque estavam convencidos de que o pais estava à beira de uma catástrofe que levaria à luta armada e à guerra civil. Em 2005, boa parte da mídia cobriu o que imaginava que iria ser o impeachment do governo Lula a partir do mensalão.
O espírito crítico exige que, acima de tudo, se preste atenção aos fatos.
Fonte: Época
Postado por Armando Lopes Rafael
(Observação: Este é o texto fiel. Sem montagem ou adaptação para dar idéia de ser coisa recente, ou constando grifos que não fazem parte do original como fazem alguns)

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