Tuesday, November 3, 2009

Da genialidade como defeito ( II ) - Por: José Nilton Mariano Saraiva

aqueles que se destacam porque parecem ter parte com as leis da natureza e realizam proezas impossíveis aos comuns. Lula sabe o que não sabe que sabe e, por sabê-lo, age como um craque. Age, talvez, por não se preocupar em saber – porque o saber, talvez, o aprisionasse. Seu espírito político sabe – sua fala apenas rasteja ao redor do que seu espírito sabe. Vamos comparar, porque é inevitável: parece que Garrincha também era um craque – mas que não lhe pedissem para explicar planos táticos, armações de meio campo, contra-ataques e polivalências. Ele seria incapaz de explicar. Sabia fazer, mas não sabia dizer nada das fundamentações do que fazia. Ele sabia, no corpo, que a bola obedecia aos seus comandos, mesmo que tivesse de desafiar a lei da gravidade. Ia lá e... fazia. Pelo menos é o que contam. Bem, a metáfora esportiva é sempre a pior possível – sobretudo aqui, neste texto, onde não existe uma única letra que goste de futebol – e, não obstante, é com ela que caminharemos para o final. Penso que justamente por explicar tão mal o jogo político que conduz tão bem é que Lula se diferenciou dos concorrentes. Nele, a política é natural. Como se fosse pré-lingüística. Como se fosse infra-lógica. Isso é possível? Não sei – e não importa. A sua fala cheia de ranhuras, de imperfeições, de quebras sintáticas e anacolutos abissais acaba servindo de comprovação do que nele começa a tomar a forma de uma genialidade atípica. É a prova cabal de que o melhor que ele sabe ele o sabe apenas intuitivamente. O que nos outros é cálculo estudado, nele é reflexo filtrado e refiltrado por uma sabedoria indecifrável. É assim que o que ele fala tem cada vez mais interesse. E é cada vez mais fascinante tentar decifrar. Mesmo quando a gente não consegue.
Os aliados preferem não se manifestar sobre a poderosa intuição de seu líder talvez para não passarem por bajuladores – embora, não raro, sejam pouco mais que bajuladores. Já os adversários lhe reconhecem os dons de raríssima acuidade política. Como eu disse, aqui e ali esse reconhecimento já se faz notar. Alguns, no entanto, ao se permitirem admitir o brilho político de Lula, adotam não o tom de elogio, mas um tom de admoestação. É gozado. Eles não o aplaudem: eles o acusam de ser um virtuose no jogo do poder. Eles o acusam de ganhar todas, de driblar os adversários a ponto de fazê-los perder o rumo, eles o acusam de ser um craque. A sua eventual genialidade, portanto, vira uma espécie de vantagem indevida, uma forma de concorrência desleal. Se dizem que ele é um craque, dizem-no apenas para pedir que se comporte, para exigir dele que não abuse de sua superioridade individual. É quase como se pleiteassem que o presidente fosse considerado hors-concours logo de uma vez, já que, contra ele, os normais não conseguem competir.
Autor: Eugênio Bucci (Observatório da Imprensa)
Postagem: José Nilton Mariano Saraiva


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