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Friday, August 10, 2012

É possível uma filosofia engajada?

Mário Ferreira dos Santos – Palestra no Centro Convivium, 1964

Esta questão de filosofia engajada é uma expressão muito moderna, que tem muitos sentidos. Em primeiro lugar, na verdade não há filosofias, só há a Filosofia.

As divergências humanas surgem porque não se estuda devidamente a filosofia, porque se partirmos de um princípio fundamental na filosofia de que a verdadeira autoridade é a demonstração, e não “a” nem “b” nem “c”, e a demonstração deve ser a mais rigorosa possível, consequentemente a demonstração apodítica, isto é, o juízo necessário, o juízo quoad se, juízo válido quoad se, por si mesmo, o juízo que esplende a sua verdade por si mesmo, estabelecemos este juízo, e os procuramos, e os construímos e temos capacidade de alcançá-los, nós só temos uma filosofia, porque toda aquela que se afastar disto é erro, tudo aquilo que se opuser e contradizer ao que está estabelecido nos princípios, é erro.

Há aquelas questões que ainda são disputáveis, aquelas questões em que nós ainda não podemos colocá-las dentro destas demonstrações, estas podem se disputar, mas são questões praticamente acidentais, de forma que as diversas posições da filosofia que surgiram são mais produtos da ignorância do que verdadeiramente do saber.

O que surgiu na filosofia grega que perdeu-se numa série de escolas foi a má compreensão dos fundadores da filosofia. Se tivessem seguido genuinamente o método de Pitágoras, não tivessem se afastado dele, não aparecessem discípulos incapazes que começaram a tomar outros caminhos, não teria havido aquela luta tremenda que há entre atomistas e eleatas e outros que foram surgindo na filosofia e que só serviram para dividir.

Tudo isso tem um valor, não sou contra, foi bom, porque tudo isso provocou grandes investigações e permitiu solucionar melhor os problemas filosóficos.

Assim como o cepticismo foi um grande bem, os cépticos gregos trouxeram um grande benefício, porque colocaram a questão da verdade em cheque, obrigaram a formação da lógica formal.

O trabalho tremendo dos estóicos, e a grande dialética dos platônicos não se teria se construído se não tivesse havido aquelas divergências. O erro também é benéfico, também deve aparecer, mas apenas com este sentido, para estimular a prestarem atenção melhor a pontos que julgamos já definitivos, acabados, já solucionados, e que podiam ser melhor, mais robustecidamente defendidos.

Essas dissenções que aparecem são necessárias, mas filosofia só há uma, assim como só há uma ciência.

Podem achar estranho o meu modo de falar, mas aqueles que seguem as minhas aulas sabem perfeitamente como já demonstrei e já provei que é assim, pois todas estas divergências surgem da má compreensão.

Na filosofia moderna coloca-se uma grande problemática, uma problemática já ultrapassada, são questões que já foram suficientemente resolvidas, mas como muitos não estão preparados pensam que são grandes novidades.

Os gregos, sobretudo os atenienses no período de decadência, quiseram estudar as causas desta decadência, porque Atenas que havia brilhado através dos séculos tinha chegado aquele estado, e quando este processo foi feito houve uma grande discussão.

Chegou-se a conclusão de que os culpados eram os sofistas. Eles é que haviam levado Atenas aquela situação de desintegração intelectual,. Procuraram um sofista para ser um “bode expiatório” e o escolhido foi Sócrates, que não era sofista, mas o havia sido na sua juventude.

Mas o povo ignorante e a juventude sobretudo ignorante, pôs-se a acusar Sócrates, a gritar nas ruas, a exigir a morte do filósofo como culpado da degenerescência do povo de Atenas. Sócrates foi julgado e é interessante que naquele julgamento perdeu por um voto e foi condenado a morte, caindo sobre ele a culpa de toda a degenerescência.

Realmente aquele processo estava certo, porque o que degenerou Atenas foram os sofistas, porque criaram toda aquela divergência de idéias, criaram a dialética de persuasão, a dialética era a retórica, e facilitava para que se discutissem todas as idéias e consequentemente se tomassem todos os rumos e Atenas perdeu a sua unidade, porque quando a elite intelectual de um povo é dominada por homens que estão divergindo uns dos outros, este povo está perdido.

Tuesday, March 27, 2012

Como é chato ser moderno. Por: Gustavo Nogy

NOTÍCIAS DO FRONT: Corre em plenário projeto de lei que – por favor, tomem seus assentos – regulamenta a, aspas, profissão de filósofo. O autor da enormidade é o deputado Giovani Cherino (PDT-RS), orgulhosíssimo, imagino, de suas lides parlamentares. Fui conferir o lattes da sumidade.

(Tirem as crianças da frente do computador). Graduado em Cooperativismo e pós-graduado em Economia Rural. E, agora, ele é o homem que vai dizer quem é e quem não é filósofo por estas plagas. Sejamos justos: não exatamente ele, mas a nobilíssima Academia Brasileira de Filosofia, que conta entre seus veneráveis membros e demais luminares da ciência com os senhores – agora doutores honoris causa – João Havelange, Michel Temer e Carlos Alberto Torres (para quem não sabe, grande médio-volante no título da seleção brasileira de futebol de 1970, autor de um gol que vale mais, feitas as contas, que a obra de uns e outros doutores por aí; mas isso são histórias outras).

Segundo nos autos consta, a Academia Brasileira de Filosofia “é a representante da filosofia e língua filosófica nacionais”, e parece-lhes evidente – e quem sou eu para discordar – que “(…) o Estado pode e deve agir no sentido de regular o exercício da profissão de filósofo no país, estipulando as condições de habilitação e as exigências legais para o regular exercício da mesma, além de seu âmbito de competência”. Stalin não diria melhor.

Stalin não diria melhor, mas quem o disse foi o senhor João Ricardo Moderno, presidente da dita Academia, na justificativa do projeto. Agora filósofo é profissão, sim senhor! E com carteira de trabalho assinada, décimo terceiro, férias (período em que, imagino, o filósofo deixa de lado a filosofia e justifica certos projetos de lei) e carteirinha da Academia. Quem não tem não é, salvo se mantiver união estável por mais de cinco anos com a musa grega.

Se filosofia é profissão e há filósofos devidamente empregados, inevitável imaginar que, em breve, a depender das flutuações do mercado financeiro internacional, teremos hordas de insuspeitos pensadores à espera do seguro-desemprego ou, o que é pior, fazendo biscates quaisquer. Melhor pensar duas vezes antes de, com a antiga displicência, pedir ao ascensorista: “Terceiro, por favor”. Ele pode ser um genuíno filósofo em temporário desvio de função e, da sua pergunta, leva-lo não ao andar desejado, mas aos mais altos níveis da abstração metafísica. Taxistas, por sua vez, serão sempre suspeitos. Todo taxista é um Heidegger inconfesso.

Mas, guardadas as proporções devidas, a posição estapafúrdia da Loucademia não deixa de ser a conclusão levada aos limites, no que toca à regulamentação (e, em consequência, a tudo o que isso implica) dos estudos de filosofia (e não só). Obviamente, cursos universitários não formam filósofos, mas professores de filosofia. Porém muitas, muitas vezes não é bem isso o que se nota quando um sujeito é entrevistado, ou citado num artigo, ou tem seu nome sob a foto de uma qualquer coluna social. Formou-se em filosofia na USP ou na UNITANTÃ – em princípio, tanto faz – e já se diz, e dizem do fulano: “Filósofo”. E os colegas acham bonito porque, claro, serve pra eles também. Trocam-se socráticos confetes.

Convenhamos: mesmo aqueles que seguiram os protocolares trâmites e fizeram graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado (França, Sorbonne – Paris 2,7/+05/68) e ostentam mais medalhas no peito que veterano de guerra não são, necessariamente, filósofos, no sentido estricto do termo. Idem para os formados em letras que não são escritores. E para aqueles formados em artes plásticas e assim por diante. Espero estar dizendo platitudes.

Pois bem: se cursos universitários não formam filósofos e nem sempre formam sequer bons comentadores de filosofia; se – Deus nos perdoe! -, muitas vezes não formam nem mesmo razoáveis professores de filosofia (está aí o Safatle que não me deixa mentir), por que diabos o título universitário há de ser tão importante assim?

Filósofo não é mais ou predominantemente o individuo que, herdeiro de uma tradição que remonta a Sócrates, Platão e Aristóteles, dedica-se a, sobretudo, educar sua própria alma e ser capaz de nela encontrar alguma ordem para só então estudar certos problemas – os problemas que lhe surgirem como tais, desde o centro mesmo do seu ser e do sentido que lhe cabe (Frankl) –, sob a perspectiva ou à luz da filosofia, mas sim aquele que, desde os cueiros, do bacharelado ao pós-doutorado, reza pela cartilha do grêmio acadêmico?

A própria idéia de produção acadêmica me causa sartreanas náuseas: como é possível que todo ano, centenas, milhares de alunos país (mundo) afora em cursos de filosofia produzam dissertações e teses de extrema relevância? Será possível mesmo fazer isso: produzir conhecimento? Vejamos: o professor Newton Carneiro da Costa meteu-se a investigar umas questões algo abstratas e, sozinho (ainda que um ou outro tenha chegado, de forma independente, a resultados semelhantes, salvo engano), descobriu ou desenvolveu os princípios todos da Lógica Paraconsistente. Ele foi e fez. É um exemplo. Miguel Reale e sua Teoria Tridimensional do Direito, outro. Mas e então? Os outros todos estão aí nas salas produzindo ciência, realizando insondáveis descobertas que muito em breve nós vamos acabar por conhecer? É possível chegar e “Vai lá pro quarto produzir ciência, moleque!”, e o sujeito voltar, três anos depois, todo feliz dizendo: “Produzi um conhecimento aqui, fessor!”.

Essa coisa de que conhecimento é algo a ser produzido, do modo como é colocada, é como chegar no sujeito que inventou a roda e exigir: “Agora, para doutorado, trate de imaginar um outro negócio aí, porque aquele seu colega já descobriu o fogo…”. E tudo isso que, em filosofia ou ciências, já soa absurdo (espero que não só pra mim, mas ao menos para mais uns dois ou três leitores) – que dizer em artes, então? “Olha aqui, Oh seu Picasso: ou você me produz uns quadros para o mês que vem, ou te corto aquela verba da CAPES. Então te vira!”. E assim nasce o cubismo.

Pensando bem: não é de surpreender que uns coitados tenham de inventar cura quântica, terapia à base de toques com os cotovelos de sábios chineses, ou mesmo, por que não?, a regulamentação da, aspas, profissão de filósofo.

Monty Python seria impossível no Brasil: não dá pra fazer nonsense do nonsense.

http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=523870

http://www.filosofia.org.br/


A filosofia brasileira é considerada patrimônio histórico material e imaterial da cultura brasileira. Nesse sentido, a Academia defende as liberdades de pensamento, expressão e demais formas do exercício da liberdade, incentivando o debate das idéias, dos valores, da Democracia e do Estado de Direito. Lutamos e obtivemos a vitória da lei da filosofia no ensino médio. Defendemos o reconhecimento da profissão de Filósofo como forma de dignidade.

Sunday, October 16, 2011

Giovanni Reale – Dostoiévski como Platão - Publicado por Antonio Sávio


Louis-Fernand

De Vera Fisogni.

Isto mesmo: há muita filosofia nos escritos do escritor russo, autor de obras-primas como “Crime e Castigo” e “Os Demônios”. O sustenta o professor Giovanni Reale, insígne estudioso da filosofia antiga – ele escreveu dezenas de volumes e uma fundamental “História”, sempre reimpressa, para uso das Universidades – hoje docente na faculdade de filosofia de San Raffaele. Reale antecipa, com grande clareza, à “La Provincia”, porque a literatura de Doistoiévski está ao nível dos “Diálogos” platônicos. Não por acaso a Bompiani (Nota: Editora Italiana), com a supervisão do mesmo Reale, inseriu o autor russo na coletânea “Os clássicos do Ocidente”, ao lado de Aristóteles, Kant, Hegel e Heidegger. Sobre isto se discute em Parolario, em 30 de agosto, na abertura dos encontros filosóficos do festival, sob os cuidados de Alfredo Tomasetta.

Por que, professor Reale, [você] considera Dostoiévski um grande filósofo, além de um grande escritor?

Compreendi isto conversando com a tradutora russa dos volumes que escrevi com Dario Antiseri, a qual me explicou que para os russos Dostoiévski é considerado precisamente um filósofo de grande estatura, de modo bem diverso de nós ocidentais que o consideramos um grande romancista. Berdiaev, em seu livro “O conceito de Dostoiévski”, precisa bem esta convicção: “Talvez a Filosofia o tenha ensinado pouco” (mas se entenda filosofia em sentido técnico e acadêmico e não em sentido verdadeiro e vital), “Mas a filosofia tem muito a falar dele”. Antes, Berdiaev acrescenta: “Dostoiévski foi verdadeiro filósofo”, e até mesmo não hesita em afirmar que “foi o maior filósofo russo”. Os seus romances são história das idéias personificadas nos vários personagens. Idéias vivas em sua profundidade e em sua complexa dinâmica e em sua força destrutiva. Berdiaev precisa: “A obra inteira de Dostoiévski é a solução de um grande problema das idéias [...]. Todos os seus heróis são literalmente absortos de idéias: não são ébrios… Tudo gira em torno a estas “malditas questões eternas”.

Isto não quer dizer que Dostoiévski tenha escrito romances em tese, para comunicar esta ou aquela idéia. As idéias são imanentes à sua arte: ele revela sua existência unicamente em modo artístico… Dostoiévski concebeu idéias originais, mas as concebeu sempre em movimento, dinâmicas, em seu trágico destino”. Dostoiévski mesmo precisa que as idéias são aquela força que move o mundo e em seu “Diário” escreve: “Na história aquilo que triunfa não são as massas de milhões de homens nem as forças materiais, que parecem tão fortes e irresistíveis, nem o dinheiro nem a espada nem a potência, mas o pensamento, quase imperceptível no começo, de um homem que parece mesmo sem importância”. Eu estou profundamente convicto que Dostoiévski faz com os seus romances o que Platão fez com os seus diálogos, que são – como os mais atentos estudiosos reconheceram – a transposição sobre o plano dialético das duas grandes formas da arte dos seus tempos, ou seja, da tragédia e da comédia.

As reflexões de Dostoiévski sobre niilismo e sobre almas entorpecidas, penso particularmente no romance “Os Demônios”, podem dizer algo ao homem de hoje?

Na Itália, Luigi Pareyson, em seu livro “Dostoiévski. Filosofia, romance e experiência religiosa”, recebeu bem e desenvolveu a interpretação de Dostoiévski como verdadeiro filósofo. Dostoiévski é muito mais do que aquele grande e sutilíssimo psicólogo que muitos reconheceram, enquanto se coloca além da mera análise da alma humana ao nível psicológico, “a sua análise vai além, e é em virtude deste ulterior aprofundamento que ele se tornou um dos zênites da filosofia contemporânea e um inevitável ponto de referência no debate especulativo do mundo de hoje”. Pareyson anima-se mesmo a afirmar que o personagem Ivan d“Os Irmãos Karamazov” exprime o conceito de niilismo de modo completo e perfeito, ao ponto que mereceria um capítulo em qualquer manual de filosofia sobre este tema, e escreve: talvez mais que Nietzsche merece representar a alma niilista hodierna, e escreve.

“E, com efeito, onde se pode hoje encontrar o niilista típico, o teórico da negação pronto a entrar como um capítulo em uma história da filosofia contemporânea, o filósofo que pensou até o fim e com extrema coerência o conceito de niilismo levando-o às extremas consequências, o pensador que das doutrinas mais tradicionais soube exprimir o êxito mais niilístico e destruidor? A resposta me parece evidente: não tanto nas labirínticas ambiguidades de um Nietzsche quanto na retilínea e implacável lucidez de Ivan”. Se se lesse atentamente os seus romances se saberia muito bem isto que muitos recusaram compreender, ou seja, que os maiores males do século passado e deste nosso século derivam propriamente daquele terrível buraco negro que se criou nas almas dos homens, que é como um abismo no qual tudo precipita. Saberia muito bem em que sentido os pseudo-valores que vem sendo ostentados não são senão são máscaras douradas da nulidade.

Há a impressão que a filosofia russa seja focada na literatura, e que deixa à poesia muito mais espaço que na Europa. É assim mesmo?

Isto é uma característica peculiar da alma russa, e é uma característica que eu aprecio muito. Penso, com efeito, que seja absurdo considerar que apenas a razão em sentido iluminístico ou mesmo científico seja a fonte da verdade. Dostoiévski fazia dizer a um personagem seu: “A razão, senhores, é uma coisa bela, é indiscutível, mas a razão é só a razão e satisfaz apenas a capacidade de raciocínio do homem, enquanto a vontade é a manifestação de toda a vida, isto é, de toda a vida humana…”

Este modo particular de sentir dos russos faz portanto compreender como nunca, por exemplo, [porque] muitos deles preferem Schelling a Hegel, ou a razão pela qual até a queda do muro, do pensamento contemporâneo italiano conheceram somente Croce, do qual apreciavam muito a “Estética”. De resto, sua grande arte do ícone é uma prova eloquente da verdade disto que estamos dizendo. Se trata, de fato, de um “pensar por imagens” assaz profundo. Os ícones são como idéias platônicas representadas em modo fantástico-poético.

Em que sentido e em que medida o pensamento cristão influenciou Dostoiévski?

Dostoiévski chegou à fé e a reforçou através do niilismo e indagando a sua autodestruição. A fé (a verdadeira fé) pressupõe a dúvida, e é verdadeira fé somente se é uma contínua e dinâmica superação da dúvida mesma. Dostoiévski escreve: “Os senhores dirão que eu sou filho do século, filho da incredulidade e da dúvida: o sou hoje e o serei até a morte. Quantos atrozes tormentos me custam esta sede de crer, mais forte na minha alma quanto mais encontro em mim argumentos contrários”.

E em resposta aos críticos que censuravam a sua fé em Cristo, dissera: “De fato, de dúvida nenhum me vence. Não é como uma criança que eu professo Cristo. O meu Hosanna é passado através de um crisol de dúvidas”. E em uma carta de 1854 escrevera: “Chego a dizer que se alguém me demonstrasse que Cristo está fora da verdade e se fosse efetivamente verdadeiro que a verdade não está em Cristo, tudo bem, eu preferiria ficar antes com Cristo que com a verdade”. Creio que esta seja a resposta mais forte à pergunta que ela me fez.

http://caballeroandante.wordpress.com/2010/10/01/giovanni-reale-dostoievski-platao/

Tuesday, August 16, 2011

Questões necessárias. Por: Antonio Sávio.

Trecho da obra "O Homem Sem Qualidades"  do autor Robert Musil nos mostra um pouco do estado que estamos: "Um 'homem sem qualidades' não é propriamente um ser humano: É alguém que perdeu a alma sem se dar conta disso. É um homem sem imaginação, triste, medíocre, infeliz, que abdica de sua riqueza interior e assim desiste da vocação essencialmente humana de superar seus limites, resignando-se a seguir uma carreira social determinada".

Platão em "A República" por sua vez nos diz: "Os poetas devem introduzir nas suas obras a representação dos bons costumes. (...).
Os artistas não devem introduzir na sua arte a maldade, o desregramento, a mesquinhez, a indecência. (...).
Os artistas e os poetas devem ser obrigados, a introduzir em suas obras a representação dos bons costumes, para preservar o povo de ser criado no meio de imagens viciadas como se fora no meio de ervas daninhas, colhendo muitas delas, um pouco a cada dia, e delas se nutrindo, contraiam, por fim, uma grande enfermidade na alma. (...).
A introdução de um novo gênero musical pode pôr tudo a perder. Não se poderia mudar as regras da música sem, ao mesmo tempo, abalar as leis fundamentais do Estado. (...)
Não há dúvida de que esse tipo de transgressão passa quase sem ser observado, como se fosse um jogo inocente. Insinua-se de modo contínuo e penetra gradualmente nos usos e costumes. Depois, toma vulto e penetra nos acordos privados, dos acordos passa para as leis e para as ordenações do Estado com grande força, até que por último arruína todas as coisas na vida privada e pública. (...)
Um prazer excessivo perturba a alma não menos que a dor. (PLATÃO, A República, Ed. Escala)

"Nisto Tu tinhas razão, porque o segredo da existência humana consiste não somente em viver, mas ainda em encontrar um motivo para viver. Sem uma ideia nítida da finalidade da existência, o homem prefere renunciar a ela e se destruirá em vez de ficar na Terra, embora cercado de montes de pão. Mas o que aconteceu? Em lugar de te apoderares da liberdade humana, tu ainda a estendeste! Esqueces-te então de que o homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir o bem e o mal? Não há nada mais sedutor para o homem do que o livre-arbítrio, mas também nada mais doloroso. E em lugar de princípios sólidos que teriam tranquilizado para sempre a consciência humana, tu escolheste noções vagas, estranhas, enigmáticas, tudo quanto ultrapassa a força dos homens, e com isto agiste como se não os amasse. Tu que vieras dar tua vida por eles! Aumenta a liberdade humana em vez de confiscá-la e assim impuseste ao ser moral os pavores dessa liberdade". Com essa exposição do Dostoiévski em "Irmãos Karamázov" resta-nos alguma dúvida do que seguir? 

O que é intrigante neste tempo atual é o desprezo suicida que temos em relação a tais exemplos e tantos outros, ocultados em prateleiras, simplesmente para fazer volume. São estes homens e através deles que ainda, ter o direito de sonhar algo melhor em relação aos tempos de hoje. Não se trata aqui, de maneira alguma - como alguma mente precipitada possa achar - de um plano, sugestão ou indireta para mudanças sociais no prima socialista do termo, mas, sobretudo, a mudança do indivíduo frente a sua liberdade de escolha, pois, como nos diria Eric Voegelin, "ninguém é obrigado a sofrer da crise espiritual de seu tempo". Por qual motivos nós deveríamos?