Friday, February 18, 2011

Escritores e Classificadores. Por: Antonio Sávio


Uma pergunta básica que um dos meus alunos me fez há pouco tempo mostra de fato um problema central do funcionamento de toda a nossa educação, e todo o nosso sistema universitário. Perguntava ele de modo bastante objetivo o motivo que uma aluna do curso de letras, logo uma universitária que supostamente teria contato com toda a cultura clássica ocidental literária, poderia não distinguir tais obras, ou pior, ser inerte a todas elas de modo que seria ela a mesma pessoa após quatro anos de estudos sem ser possível notar nenhum progresso em suas condutas, em sua personalidade, em sua sensibilidade. No máximo aí, teríamos alguma habilidade técnica toscamente desenvolvida. O problema aí abordado pode ser visto pela virtualidade de ações em jogo. Quando um escritor de primeira linha como um Machado de Assis, um Dostoiévski, um Goethe escrevem eles sempre se referem ou tentam se referir às ações humanas de modo mais fiel possível. O que se deve atentar não é a fidelidade narrativa dos fatos, pois, caso fosse isso um escrivão seria entendido como um talentoso escritor, o que de fato nada tem a ver. A habilidade em captar os signos mais ocultos e significativos da alma humana, e somado a isso saber expressá-los de modo original e invulgar é a marca que caracterizaria o grande escritor. Seria também sua proximidade com as condutas humanas, sendo ele então por natureza, um grande psicólogo, afinal, não é isso mesmo que dizem sempre do próprio Dostoiévski?

O contato com a realidade e a expressão virtual da mesma por meio dos mais variados signos torna-se então a meta do artista da palavra. A falta de habilidade em captar, interpretar e conduzir tais experiências impossibilitaria de imediato a escrita de qualquer obra significativa nos moldes dos clássicos da literatura ocidental.

Deste modo, é como se achássemos que uma criança recém-alfabetizada e que tivesse em mãos um livro de geografia e outro de física nuclear pudesse declarar guerra a qualquer país. Isso de fato não poderia acontecer, pois, mesmo que ele ao lesse tais livros e entendesse tudo, uma série de elementos virtuais, como experiências que não se configuram apenas no campo físico imediato, seriam necessárias para por o seu plano em prática. Ele ignorando todos os demais sistemas políticos, relações internacionais, estratégias de guerra e outros cem mil fatos necessários, seu plano só poderia fracassar.

Do mesmo modo que é pura inocência uma faculdade de letras achar quer pode melhorar ou habilitar algum aluno que se furte de analisar as experiência contidas nas obras, que é a principal ideia, e não observá-las de fora, classificando-as em estilos, como alguém que sedento em uma fábrica estivesse durante todo o dia a separar garrafas de Fantas e Coca-colas sem ter autorização de provar nenhuma delas. Empacotar estilos sejam musicais, literários ou pictóricos sem que de algum modo possa tentar vivê-los em parte ou refletir sobre as narrativas de modo sincero é o mesmo que tentar matar a sede olhando para a garrafa.

A mecanização de classificar estilos e aborrotar alunos com exercícios fúteis sem remetê-los a experiências reais riquíssimas, que certamente se relacionariam com a filosofia, a filosofia em seu aspecto ontológico, é tirar toda a possibilidade de crescimento do estudante de letras. Eis aí o motivo que uma pessoa possa estar na faculdade de letras, junto com os maiores entendedores da alma humana e ao mesmo tempo sair de lá inerte, ansioso (a) para ver o BBB. Neste caso, não temos uma estudante de letras que se aproprie de palavras como meio efetivo de expressão referindo-se a realidade das experiências, mas sim uma pessoa que classifica e rotula estilos literários, como alguém que colava antigamente rótulos em garrafas. Não podemos requerer que estas pessoas tenham a mesma habilidade de um grande escritor, pois um número ínfimo teria, mas que pelo menos, elas sejam capazes de entender e se referir a tais experiências. Ignorá-las por completo e captar apenas aparte mais visível do texto (o que pode ser classificado como objeto exterior) é um exercício estéril.

O primeiro processo a ser feito, portanto seria a leitura e o estudo das ações humanas contidas nas obras literárias. Após anos de leitura de grades obras, o estudante teria uma gama de experiências virtuais, mas que se referem à realidade humana como nenhuma outra fora escrita. É aqui poder comprar um produto de primeira e não uma bijuteria. Além disso, o mesmo estaria habilitado a ver quais livros eram realmente produtos de um estilo singular que se referisse a tradição da cultura ocidental ou, a tentativa de um escritor iniciante, imitando um ídolo. Ora já pensou se confundíssemos um Rembrand com um Jacob Jordaens sob o pretexto que ambos eram do mesmo estilo? Como diria o Fernando Henrique: - Assim não pode. Assim não dá!

Por: Antonio Sávio Nunes de Queiroz

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