(Fonte: Estado de S.Paulo)Durou exatos 38 dias o retiro sabático de Luiz Inácio Lula da Silva. Foi só surgirem as oportunidades - o 11.º Fórum Social Mundial, em Dacar, Senegal, e a festa do 31.º aniversário do PT, em Brasília - para o ex-presidente subir de novo no palanque.
Para variar, disse algumas, poucas, coisas sensatas (como o puxão de orelha nos sindicalistas "oportunistas" que estão pressionando pelo aumento do salário mínimo acima do previamente combinado com o governo) e, como de hábito, confirmando o dito popular segundo o qual quem fala muito dá bom dia a cavalo, exibiu o melhor de seu repertório: banalidades, incongruências e demagogia.
O mais notável, porém, foi a revelação de um sentimento insuspeitado: ciúmes. Lula deixou claro, exaltou-se mesmo, ao manifestar sua inconformidade com o fato de os "formadores de opinião" tenderem a aplaudir e elogiar o comportamento de Dilma Rousseff em suas primeiras semanas no poder. Para ele, isso significa que se está tentando "criar diferenças" entre o seu governo e o de sua sucessora, com o objetivo de "desconstruir" sua administração: Descontada a patética demagogia barata dessa manifestação, ela pode ser interpretada também como um incisivo recado aos "formadores de opinião": parem de falar bem da Dilma!
Compreende-se que o ex-presidente esteja ferido em sua egolatria, mas as diferenças entre seu governo e o atual não são invenção da mídia. Elas saltam aos olhos, mesmo quando se trata apenas de questão de estilo. Para citar apenas um exemplo, este no âmbito externo: Dilma já deixou claro que não mais ignorará o desrespeito aos direitos humanos de regimes autocráticos como o do Irã e o de Cuba.
Além da revelação do ciúme de sua sucessora, o retorno do ex-presidente indicou, claramente, o papel que ele pretende desempenhar na cena internacional. O Itamaraty não obteve, durante os dois mandatos de Lula, sequer uma conquista diplomática significativa. Ao contrário, protagonizou uma série de intervenções desastradas - Honduras e Irã, para citar apenas dois exemplos - e comprometeu qualquer possibilidade de êxito a curto prazo de sua maior ambição diplomática: a admissão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. É o velho Lula que volta com tudo e - quem diria! - com ciúmes de Dilma.
Fonte:jornal O Estado de S.Paulo
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