Sunday, September 19, 2010

Romaria do Caldeirão destaca luta pela vida - Reportagem: Antonio Vicelmo


Referência na história do movimento popular no Nordeste, o Sítio Caldeirão atrai devotos a cada romaria - ANTÔNIO VICELMO. Ruínas de cemitério construído pelas famílias lideradas pelo beato Zé Lourenço na primeira metade do século passado. O Sítio Caldeirão é cenário para grande romaria que acontece no domingo e destaca a luta pela sobrevivência

Crato. Com o tema "Vida em Primeiro Lugar", será realizada neste domingo, 19, a 11ª Romaria ao Caldeirão do Beato José Lourenço, onde será celebrada uma missa a partir de 7 horas, durante a qual será lembrada a luta secular dos trabalhadores sem terra pela sobrevivência.

O movimento de ruralistas no Sítio Caldeirão, liderado pelo beato José Lourenço, segundo o padre Vileci Vidal, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT), tornou-se sinal de liberdade camponesa onde prosperou uma vida baseada na experiência das primeiras comunidades cristãs. Segundo ele, atualmente, é referência histórica para as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e quilombolas da região.

Produção de saberes

"O movimento popular no Sítio Caldeirão se confunde com a história do beato líder José Lourenço, que organizou a comunidade com padrões de comportamento e forma de relacionamento que resultaram numa rica produção de saberes", complementa o sacerdote.

Este ano, a comissão coordenadora da romaria está divulgando um texto que conta a história da religiosidade popular no Nordeste e, particularmente, do beato José Lourenço. De acordo com o documento, a história dos beatos no Nordeste tem início com o Padre Ibiapina. Daí surge, então, beatos como Antônio Conselheiro, que se confunde com a história de Canudos, na Bahia. Em tempos mais tardios surge o Caldeirão, sob a liderança do Beato José Lourenço, que levava uma vida de penitente, sob a orientação do Padre Cícero Romão Batista.

Comunidade organizada

O Caldeirão ficava nas terras de herança do Padre Cícero, no Município de Crato. Torna-se uma comunidade organizada pelo beato Zé Lourenço com o objetivo de conduzir um grupo de trabalhadores rurais a conhecer e viver uma vida digna, abundante, pautada pela oração e pelo trabalho. "O verdadeiro milagre do trabalho, nesta comunidade, foi transformar o solo estéril numa terra produtiva", afirma o Padre Vileci.

A utopia da comunidade era a abundância. Os trabalhadores acreditavam que era possível um mundo onde todos desfrutem, igualmente, das riquezas produzidas. Esta crença tratava-se de uma herança espiritual do Padre Ibiapina que interfere na mudança estrutural religiosa do Cariri na década de 1860 e 1870, substituindo o mundo das profecias assombradas (medo do inferno) pelo realismo da caridade praticada com o lema "nada faltará", pregado pelos beatos e beatas nos sertões nordestinos: bastava trabalhar e dividir os frutos do trabalho que haveria abundância para todos. "Essa foi a utopia também presente em Canudos e pregada pelo beato Antônio Conselheiro, que chegou a fazer missão com Padre Ibiapina, em Quixeramobim e Sobral", lembra padre Vileci.

Semiárido

Tanto Canudos como Caldeirão expressam vantajosas experiências camponesas de convivência com o semiárido onde tudo era de todos: se produzia muito e se armazenava. Todos trabalhavam em mutirão, comiam juntos. Um grupo de mulheres preparava a comida, os trabalhos eram divididos por tarefas segundo a aptidão de cada um. Enquanto uns trabalhavam na roça, outros pastoravam o gado e trabalhavam nas oficinas. E assim, havia ocupação para homens e mulheres. Acontecia muita festa no tempo da moagem. E durante o ano, os acontecimentos religiosos ficavam por conta da irmandade da "Santa Cruz do Deserto". A comunidade era organizada pelo tripé: trabalho, oração e abundância. O trabalho está ligado à penitência e sacrifício, ao passo que abundância vem como compensação ou recompensa de todo o esforço feito. Era com este entendimento que o beato educava aquela gente desvalida que lá chegava.

O alimento era o que de mais sagrado podia existir. Por isso, servia tanto para alimentar o corpo como para alimentar a alma. Ali havia fartura de trabalho e alimento e nada era transformado em mercadoria. Referência dada pelos remanescentes ao Caldeirão: "lá era lugar de abundância e tinha tudo do que se precisava". O que se vendia, com o dinheiro, se comprava medicamento e tecido para suprir a própria comunidade nas suas demandas por saúde e vestimentas, numa vida de solidariedade coletiva.

Seca

1932 Foi o ano de uma grande seca registrada no Nordeste do Brasil. No Cariri, famílias de famintos correm para o Sítio Caldeirão em busca de trabalho e alimentação, aumentando a população local

MAIS INFORMAÇÕES
Cúria Diocesana
Rua Dom Quintino, 808, Centro
Crato (CE), (88) 3521.0695
(88) 3521.1110

AGROVILA
Trabalho coletivo marcou comunidade

Crato. A área do Sítio Caldeirão, correspondente a terras do Padre Cícero, media 900 hectares. A localização era numa região semiárida com pouca vegetação, solo nu e pobre em nutrientes, topografia acidentada e com vários grotões. O documento divulgado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) destaca que "a comunidade do Sítio Caldeirão nos inspira na discussão sobre a convivência com o semiárido, considerando que se trata de uma experiência em uma época de extrema miséria no campo, devido a impossibilidade que tinham os trabalhadores de acesso à terra, se perpetuando a super exploração, a miséria e a fome entre os trabalhadores do campo".

Na comunidade liderada pelo beato José Lourenço se estabelece uma verdadeira agrovila com centenas de casas, dois açudes, engenho de rapadura, casa de farinha, armazém para estocar alimentos, oficinas de marcenaria, ferreiro, aviamento de couro, barro e cerâmica, grande variedade de frutas, cultivo de cereais, criação de bois, porcos, cabras, galinhas, animais de estimação domésticos (cães e gatos) e selvagens domesticados (emas, mocós e papagaios). Todos eram criados com liberdade. Tinha também alguns cavalos para o uso do beato.

Medo da fome

Em 1926, a população inicial do Caldeirão era entre 200 a 300 pessoas e teve um aumento considerado com a seca de 1932, quando as pessoas procuravam a comunidade para não morrer de fome. Após a invasão policial, em 1936, a população estava entre 1.500 e 2.000 habitantes. Os integrantes da comunidade eram os romeiros mais desvalidos, os fugitivos de perseguições, aqueles que precisavam ser reeducados no trabalho e que chegavam a Juazeiro sem perspectiva e o Padre Cícero destinava para morar com o beato Zé Lourenço. A primeira experiência de comunidade produtiva foi realizada pelo beato no Sítio Baixa Dantas, no Crato, numa terra arrendada, que, vendo prosperar num espaço também de dez anos, o proprietário pediu a desocupação e, por conta disso, o Padre Cícero orientou para que fossem morar em suas terras no Sítio Caldeirão.

No local, o trabalho era voluntário, as pessoas eram livres para escolher aquele estilo de vida, mas não eram livres para explorar os outros, viver a custa da "energia" (do suor) dos outros. Portanto, quem não quisesse trabalhar, também ali não morava: "lá era só de rezar e comer muito e trabalhar muito", destaca o documento divulgado pela Pastoral da Terra.

Por conta dessa experiência, o beato Zé Lourenço foi muito chicoteado pelas autoridades e coronéis da época, por ser camponês pobre e negro.

Tanto é verdade, segundo o documento da CPT, que dois anos depois da morte do Padre Cícero, as oligarquias da época mandaram policiais e militares invadiram a comunidade. Em 11 de setembro de 1936 aconteceu a primeira expedição, destruindo toda a plantação e roubando os pertences da comunidade. A segunda expedição aconteceu em maio de 1937, quando se deu o bombardeio, destruindo o Caldeirão e matando quase mil pessoas.

Desde então, pesquisadores de diferentes áreas estudam aquele fenômeno, reconhecendo seu valor histórico para a compreensão das organizações campesinas no País.

Antônio Vicelmo
Repórter do Jornal Diário do Nordeste
Colaborador do Blog do Crato e do Chapada do Araripe Online

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