Conhecida pela cidade que não dorme, Potengi reúne trabalhadores que lidam com o ferro numa rotina exaustivaPotengi. Quem chegar pela madrugada na "cidade que não dorme", se depara com o tilintar dos ferros, no moldar das ferramentas em brasa. Foices, machados e roçadeiras tomam forma a cada batida. Potengi recebeu a fama que vem de décadas, por conta dos trabalhadores braçais, os ferreiros, que pouco dormem durante a vida para se dedicar a uma profissão árdua, mas compensadora para uma cidade com poucas opções de sobrevivência, além da agricultura e da atividade no serviço público municipal.
O início da atividade mantém um contato direto com o ferro que vai se amoldando à ação do fogo. Em seguida, é feita a fase de formação dos produtos e o uso de marteladas para destacar a forma do produto final fotos: elizângela santos. Para quem sempre conheceu o ditado de que "em casa de ferreiro o espeto é de pau", o dia adia, para não dizer o contrário, dos trabalhadores das mais de 30 oficinas, a maior parte delas na Vila Central, na saída da cidade, é o que garante a sobrevivência de mais de 60 famílias, em pleno sertão caririense. A cidade de pouco menos de 10 mil habitantes já se acostumou com a rotina. Os próprios ferreiros sonham com a conquista de um espaço, uma espécie de galpão, para não incomodar a vizinhança com o barulho das batidas no ferro em brasa. Mas, ainda é só um sonho.
Ganhos
A maioria dos trabalhadores ganha pouco mais de um salário. Pelo menos, é mais rentável do que a roça, que dá a metade do valor na diária. A rotina de trabalhar com a quentura envolve ter que acordar muito cedo e seguir no rojão até o meio-dia. O rendimento está na quantidade de peças produzidas. Quanto mais, melhor. O ganho vem da pequena porcentagem que cada ferramenta oferece. A falta de organização da categoria, mesmo com a existência da Associação dos Ferreiros de Potengi, leva a uma concorrência desestimulante para os trabalhadores. Resultado: todos resistem enquanto podem, já que não há outra saída mais rentável. A terra dos ferreiros passou a ser uma referência. A atividade remonta o período medieval, no ritmo e forma de produção, no trato das peças na batida amparada pela bigorna. De um lado, o ferreiro molda e do outro há um auxiliar. A porcentagem de cada ferramenta é dividida para os dois. A maior parte fica com o ferreiro, o mestre. A marca de cada oficina são duas letras em cada produto, normalmente as primeiras do nome do proprietário, que fica com a maior parte do lucro. Uma das peças vendidas mais em conta é a foice. Em torno de R$ 8,00.Abandono
As garantias trabalhistas se encontram tão distantes quanto as origens dessa profissão árdua, antiga e que tem gerado sequelas na vida desses homens. Alguns deles, seguidos pelos seus filhos, no mesmo ritmo da batida. "É um trabalho quase escravo", diz Antônio Galdino, que já dedicou 22 anos, dos 48 de vida, ao ofício. Ele é consciente do abandono em que vivem os oficineiros do ferro. Adentram em taperas, algumas delas praticamente caindo sobre suas cabeças, e acendem o fogo de carvão. O consumo da madeira é o que ameaça a atividade. Eles temem a fiscalização de órgãos competentes.
Fonte: DN

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