Sunday, June 19, 2011

A BENÇÃO, EVALDO GOUVEIA! - Por: Fernando Dantas


No dia 11 de junho do ano em curso, sábado próximo passado, aportei na pujante cidade de Iguatu com a benfazeja expectativa de assistir, ao vivo, o “show” do virtuose Evaldo Gouveia, então programado para a noite do mesmo dia, no bucólico CRI de tantas manifestações sociais e cívicas da família iguatuense, cujos ilustres filhos tratam tão calorosamente seus privilegiados visitantes, que - como eu - buscam o calor humano e as belezas naturais que brotam daquela terra abençoada.

Engenheiro por profissão e pesquisador musical por devoção, a magnífica obra do seresteiro Evaldo Gouveia despertou-me a curiosidade desde os tempos de adolescente no Cratinho de açúcar, minha terra natal, ao deliciar-me com as inspiradas melodias do mestre para as letras primorosas de seu inseparável parceiro, Jair Amorim, falecido em 1993, cuja profícua comunhão com Evaldo produziria as maravilhas que encantaram o país nas vozes de ícones do nosso cancioneiro, como Altemar Dutra e Moacyr Franco, o Trio Nagô (formado por vocalistas do quilate de Epaminondas, Mário Alves e Evaldo), Ângela Maria e o Professor Cauby Peixoto, entre outros consagrados intérpretes, que os guindaram ao panteão eterno dos grandes vultos da MPB.

Com a vênia dos leitores, abro parênteses para ilustrar esta crônica com a menção a uma relíquia que conservo prazerosamente em meu acervo de mais de 5.000 LP’s, que é nada menos que o antológico álbum “Cauby Peixoto Interpreta Evaldo Gouveia e Jair Amorim”, da frutífera safra de 1965, em que o Professor Cauby canta divinamente 12 pérolas de Evaldo e Jair, entre as quais, “Que Queres Tu de Mim?”, “Há Meia Hora Apenas”, “Existe Alguém”, “Dai-me um Luar” e “Sentimental Demais”.

Apenas para evidenciar a importância histórica do LP do Professor como um marco na fonografia brasileira, saibam os amigos que, de tão raro, o disco é disputado (quase) no tapa pelos garimpeiros de preciosidades nos sebos do Rio e de São Paulo!

Iniciei minha coleção no final dos anos 60, quando, em Fortaleza, dividia com colegas do Crato um apartamento ou “república”, na Rua Major Facundo (República de Estudantes do Cariri - RECA), e graças aos parcos salários que advieram dos primeiros estágios remunerados em Engenharia, comprei, na charmosa VOX da Rua do Ouvidor (Guilherme Rocha), meus primeiros discos, que, juntamente com os colegas da RECA, ouvia com sofreguidão na vitrola de meu dileto amigo Roberto Borges (salvo engano de minha parte, creio que Roberto já foi Juiz de Direito da Comarca de Iguatu).

Os vinis precursores ocupam lugar de destaque na galeria e, não por mera coincidência, contêm, em seus repertórios, marcantes canções de Evaldo e Jair, quais sejam, pela ordem: “Belíssima”, no LP “... E Moacyr Franco”, “Minha Serenata”, inserida no LP “Uma Noite de Seresta”, com Carlos José, e “Valsa para Qualquer Esquina”, “Dedicatória” e “Raiva de Ti”, gravadas pelo saudoso Altemar no álbum “Dedicatória”. As reminiscências invadem meu imaginário em “flashback” e desembocam no “show” de Evaldo no CRI, onde vibrei intensamente com o romantismo de seu canto, que fulgura no brilho da estrela de “Belíssima”, e em especial com sua esplêndida forma para um senhor de 80 anos, que, embora “viúvo” de seu artesão das letras desde 1993, segue perpetuando o generoso legado que, juntos, oferecem aos amantes da poesia do velho capixaba e da musicalidade de meu cativante personagem, cuja paixão por seu ofício o leva adiante na prodigiosa vocação de cantador, agora no convívio de novos versejadores, como o eclético Paulo César Pinheiro e nosso poeta maior Fausto Nilo.

Ainda porque na noite de Dom Evaldo Gouveia, no salão apinhado de amigos e fans desse mago que honra e cultua o nome Iguatu em todos os quadrantes onde sua voz ecoa em incontida emoção, este cronista resgatou os melhores momentos de sua veneração pelas jóias musicais lapidadas por ele e por Jair Amorim em “O Conde”, verdadeira declaração de amor à Portela, e ponto de partida para “Pizindin”, ungido como samba-enredo da escola em 1974, “Tango prá Tereza”, um emblemático tributo a Gardel, “Garota Moderna”, clássico que nada fica a dever aos mais inspirados temas da Bossa Nova, “Brigas”, memorável samba-canção que celebrizou Altemar, e “Ave Maria dos Namorados”, régio “mimo” de Evaldo aos casais que foram prestigiá-lo no CRI.

Evaldo Gouveia é um predestinado para a Música! É um autodidata que faz de seu canto a própria razão de viver! É um pedaço de seu idolatrado Iguatu!

A benção, Evaldo Gouveia!
( artigo enviado por Álvaro Barreto Dantas )

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