LEITURA DE DOMINGO - Júlio Saraiva
O POETA
Júlio Saraiva era muito inquieto. Sentava-se no banco da Praça, discutia, expunha as suas idéias. De repente levantava-se e começava a coçar um ombro, sempre com a mão trocada e passando sobre a cabeça. Um dia, resolveu fazer algo diferente. Foi até à beirada da calçada. Olhou para cima e sapecou:
- “Pronto, agora virei poeta! Lá vai”:
“Lá vem a lua saindo
Redonda como um solidéu
Não é lua não é nada
É o olho do ** do céu!”
MIRINDIBA
O Júlio Saraiva era também uma espécie de Burle Marx da cidade. Era ele quem projetava os jardins públicos e orientava a sua implantação. Sempre utilizava as árvores da região, para possibilitar sombreamentos. Mas nunca chegou a utilizar uma conhecida por “mirindiba”, bastante apreciada como alimentação dos veados (o animal mesmo). Dentre as árvores da Siqueira Campos tinha umas palmeiras imperiais que já estavam necessitando de substituição.
Por ser um espaço muito democrático, no qual se reuniam os mais distintos grupos de pessoas, também contava com representantes do que hoje chamaríamos “gays”. O local de suas reuniões era, justamente, embaixo das tais palmeiras. Certo dia o Padre Gomes, passando por lá, na sua costumeira conversa com o Júlio Saraiva, sugeriu:
- “Júlio, por que você não substitui estas palmeiras que estão morrendo por “mirindiba”. Os veados da praça vão gostar!!!”
Em primeiro plano a Praça Siqueira Campos e as palmeiras, sob as quais se reuniam os “gays”. Ao fundo o Grande Hotel e, no térreo, a Sorveteria Glória.RUI BARBOSA
Numa das edições da Revista cratense “A Província” o Júlio Saraiva foi homenageado com um belíssimo artigo de Zilberto Fernandes Teles. Além de traçar um real perfil, contou fatos da verve afiada desta figura ímpar da “Câmara dos Comuns”. Embora se dizendo ateu, agia como um verdadeiro seguidor de Cristo. Sempre que algum pedinte aproximava-se dele, antecipava-se e, carinhosamente, dizia:
- “Não me peça, eu lhe dou...”
Mas era implacável com as pessoas que não costumavam usar da inteligência. Não contemporizava. Certa ocasião, em conversa com alguém que tinha um avô quase analfabeto, o assunto passou a ser sobre música. Júlio era admirador exaltado da música clássica. Este interlocutor disse, recebendo a imediata resposta do “Velho Bode”, como também era conhecido:
- “Para mim tanto faz ouvir um clássico como um baião do Luiz Gonzaga.”
- " Realmente, não faz diferença. É a mesma coisa de uma carta escrita por seu avô e outra por Rui Barbosa... "
O ZOOLÓGICO
Papai sempre foi um apaixonado por pássaros. Chegou até a fabricar gaiolas ou viveiros para eles. Eram tarefas executadas à noite, com a ajuda do “Compadre Zé” (José Pereira). E eu sempre acompanhando, querendo ajudar. Meu pai gracejava, dizendo:
- “Compadre Zé, este menino ‘a trabalha’ muito, não é?!”
Esta paixão por passarinhos perdurou por toda a sua longa vida. Nos seus últimos anos não podia mais cuidar, porém ficava ouvindo o seu canto, extasiado. Faleceu em casa, às 2h30 da madrugada. A sua velha sabiá não mais cantava. Porém, naquele momento, ouviu-se o seu mavioso canto. Por algum tempo chegou a criar outros tipos de animais. Lembro-me de umas marrecas. Para tanto, foi feito um pequeno tanque que, em certas ocasiões, transformávamos em piscina. O certo é que as marrecas começaram a importunar, e mamãe deve ter aconselhado a doá-las para o pequeno zoológico, que tinha no centro da Praça da Sé, idealizado pelo Júlio Saraiva, por ocasião das festas do Centenário (1953). Lembro-me da grande atração que era um jacaré chocando uma quantidade enorme de ovos. Diante dos meus protestos em doar as “minhas” marrecas, papai dizia que eu podia ir visitá-las, lá na Praça. O certo é que, ainda hoje, qualquer marreca que vejo penso que são as “minhas”. Tornaram-se imortais... Sob os protestos do Júlio, o Prefeito, para economizar a ração dos animais, acabou com o Zoológico.
Em frente à Praça Siqueira Campos, ao lado da Sorveteria Glória, tinha a casa “dos Leões”. Eram duas estatuetas de leões, que existiam no portal de entrada da residência. A casa foi demolida e o Júlio recolheu os “leões”. O prefeito, que acabou com o pequeno Zoológico, pediu ao Júlio as estatuetas para colocá-las em determinado projeto da Prefeitura. Recebeu a seguinte resposta:
- “Você não gosta de animais que comem, eu não lhe dou os animais que não comem”
Marcelo tomando banho no tanque das marrecas.
FRESCURA
Júlio Saraiva era freqüentador assíduo da Praça Siqueira Campos. À noite a sua presença era sagrada. Durante o dia, naquelas horas em que o calor era mais intenso, ia sempre à Sorveteria Glória tomar um refrigerante ou algo gelado, que abrandasse o calor. O Veridiano, meu primo, que hoje mora em Teresina, trabalhou certo período na Sorveteria do Luís. Costumava atender ao Júlio. Um dia, porém, ficou confuso com um seu pedido, ao pé do balcão:
- “Me dá uma frescura, aí.
- Oxente, “seu” Júlio, uma frescura?
- Sim, uma frescura!
- Não estou entendendo. O senhor quer um refresco?
- Não, refresco é fresco duas vezes. Eu só quero uma frescura.
Fonte: Livro "Só no Crato" de Ivens Mourão - Direitos de Publicação concedidos ao Blog do Crato pelo autor - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS
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