Friday, February 19, 2010

Brejo Santo - Bodega "Caldeira do Inferno" mantém tradição há 50 anos


Chico Sinésio, proprietário de uma das mercearias mais populares do Cariri, transformou a cordialidade na principal ferramenta para atrair freguesia em seu comércio. 20/2/2010

No contexto do tempo atual cada vez mais veloz, uma pequena mercearia do Interior mantém uma realidade bem diversa. Brejo Santo. Uma mistura de bar, botequim, clube social, varanda aconchegante da nossa casa. Assim é o pequeno comércio Caldeira do Inferno que, este ano, está comemorando 50 anos de idade. A Caldeira do Inferno é mais do que o reduto dos boêmios, notívagos que varavam as madrugadas do Brejo de antigamente. É o aconchego, o referencial, o ponto de encontro de uma cidade que foi esmagada pelo progresso, o fascínio da modernidade. É um dos poucos patrimônios de uma sociedade sem memória. Ao contrário dos bares convencionais, que oferecem um cardápio variado, o único tira-gosto da caldeira é um caju, cortado em cima do balcão, ou uma laranja. A atração principal é o clima de cordialidade, a conversa amiga, descontraída, no pé do balcão, ou na sombra de uma árvore em cima da calçada. Ponto de distribuição do Diário do Nordeste na região, a Caldeira é também o balcão de informações do cotidiano.

Nas comemorações do cinquentenário, o velho prédio da Caldeira foi restaurado, contra a vontade do seu proprietário Francisco Gomes Feijó, conhecido como "Chico de Sinésio", que sempre resistiu à ideia de mexer nas lembranças do passado. A vontade dos filhos foi mais forte do que o saudosismo do pai. As portas foram substituídas, o prédio foi pintado e o velho balcão de madeira foi coberto de novo material, a fórmica. Permaneceram nas paredes as fotos de políticos e artistas famosos que visitaram a Caldeira. As lembranças da antiga barbearia, onde Sinésio Gomes fazia a barba e cortava o cabelo da sociedade brejo-santense e, às vezes, suspendia o atendimento para instalar na cadeia de barbeiro um bêbado amigo que não tinha condições de voltar para casa em estado de embriaguez.

"Com o coração safenado e sacolejado pelo tempo, Chico de Sinésio transformou a Caldeira na sala de visita de nossa casa, com o seu jeito brejo-santense de ser", diz o farmacêutico Ivan Landim, um dos frequentadores da Caldeira. "Sem a Caldeira, o Brejo perde a sua identidade. Ali, naquele pedaço de chão, entre quatro paredes, estão guardadas as mais gratas recordações da nossa juventude", completa ele.

Já para outro consumidor fiel, o engenheiro Gilson Leite Quental, a Caldeira transformou-se no "sacrário de emoções". "Hoje, cinquentona, ela ainda nos seduz com o seu charme e simpatia. O tempo, a idade e a modernidade não conseguiram destruir este caso de amor que todos nós temos pela Caldeira", destaca o engenheiro, lembrando que não é fácil manter a tradição de um estabelecimento comercial no mundo em mudanças cada vez mais aceleradas. Nos últimos tempos, a velocidade das tecnologias teve um impacto dramático sobre as pessoas. Inconscientemente, a humanidade parece perder os valores tradicionais e, principalmente, o convívio entre amigos. Este é o valor preservado na Caldeira do Inferno.

Apelo aos sentidos

A sociedade moderna, por um estado de coisas, se tornou uma sociedade estética onde o valor da beleza e os apelos aos sentidos contaminam a cultura: as formas de pensar, de agir, sentir e organizar a vida comunitária se individualiza cada vez mais. A cultura de consumo, sustentada pelo fenômeno da moda, modificou em profundidade a sensibilidade dos consumidores. Tudo se tornou volátil, até mesmo as velhas amizades, que foram atropeladas pela velocidade do cotidiano. As relações humanas não são mais tangíveis e a vida em conjunto, familiar, de casais, de amigos, perde consistência e estabilidade. Porém, na Caldeira do Inferno, a realidade é bem diferente.

ENQUETE
Clientela fiel

"A Caldeira do Inferno é o paraíso de todos os clãs do passado e do presente. Eu sou um desses remanescentes"
FRANCISCO FEIJÓ
71 ANOS
Motorista


"Sem a Caldeira, o Brejo Santo perde a sua identidade. Ela faz parte da nossa cultura e é ponto para preservar nossa memória"
IVAN LANDIM
78 ANOS
Farmacêutico


"A Caldeira é o sacrário das nossas emoções. Hoje, cinquentona, ela ainda nos seduz com o seu charme e simpatia"
GILSON LEITE QUENTAL
67 ANOS
Engenheiro


MAIS INFORMAÇÕES
Caldeira do Inferno
Praça Dionísio Lucena, S/N
Centro, Brejo Santo
(88) 9928.1116


LEMBRANÇAS
Mercearia é ponto de preservação da memória

Brejo Santo. A mercearia Caldeira do Inferno resistiu heroicamente a esta avalanche de progresso que leva ao individualismo. O tradicionalismo da mercearia é uma resposta ao modernismo que transforma a cidade num brinquedo eletrônico. Rever a Caldeira é restaurar a memória de tipos populares que, na verdade, constroem no cotidiano a identidade dos moradores da cidade. É relembrar figuras como Pedro "Cilião" que, apesar de não ter entrada para a história oficial, é tema de conversa nas mesas de bares.

Conta-se que, na seca de 32, Pedro Cilião entrou numa fila para falar com um emissário do governo que veio fazer o alistamento dos flagelados para socorrê-los. Enquanto aguardava ser atendido, Cilião perguntava aos amigos: "O que foi que ele ti deu?". A resposta era sempre a mesma: "nada, ele anotou meu nome para levar para o governo". Mesmo assim, Cilião permaneceu na fila. Quando chegou em frente ao emissário permaneceu de braços cruzados. O funcionário do governo perguntou: "O que é que o senhor quer?". Foi quando Cilião respondeu: "Eu não quero nada. Eu num tô vendo o senhor dar nada a ninguém".

Nem só de saudosismo vive a Caldeira. A antiga barbearia, que foi o centro de informações da cidade, continua cumprindo a sua missão. É uma espécie de sala de redação da cidade. Ali se sabe de tudo: futebol, política, religião. A Caldeira é o polo catalisador de poetas, seresteiros, intelectuais que encontram na Caldeia o ambiente ideal para seus devaneios.

Resiste à realidade onde, aos poucos, as pessoas vivem sozinhos na multidão, enganadas por falsas ideias de relações duradouras. Mesmo em grupo, o homem urbano parece se sentir só. É preciso sentir o mundo, ir às ruas, misturar-se a todo tipo de gente. Nenhuma conversa virtual substitui a emoção do olho no olho, na mesa de um bar, numa banca de bebida, onde inúmeros temas se mesclam e se alternam.

ANTÔNIO VICELMO
Repórter do Jornal Diário do Nordeste
Colaborador do Blog do Crato

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